Histórico

8-Excelente crônica em comemoração aos 55 anos da turma.

Autoria do Malafaia oriundo do meio civil para todos os colegas,

a despeito da origem e do tempo de Marinha;

 

TURMA ALMIRANTE COX – 55 ANOS DE FORMATURA

 

Vinte e sete de dezembro de 1964! Desembarcava na Rodoviária Mariano Procópio (quem se lembra dela, em plena Praça Mauá?) um candidato ao Concurso de Admissão à Escola Naval.

 

Como não morava na cidade, conseguiu ficar alojado (ou aquartelado, como aprenderia depois...) na EN até o término das provas escritas. Após apresentar-se ao “caveira de pau”, foi encaminhado a um camarote de aspirante, na parte superior da ilha. E, com surpresa, encontrou dois outros candidatos que lá estavam aquartelados. Eram alunos do 1º ano do Colégio Naval que, por já terem o diploma do Curso Científico, fariam também o concurso para ingressar, diretamente, na EN. Assim, ficaram todos alojados no camarote 209.

 

Todo o Corpo de Aspirantes estava de férias e os três candidatos se consideravam os “donos” da silenciosa Escola. O rancho era na parte baixa, na Praça d’Ármas dos oficiais. Naqueles poucos dias que antecederam o início das provas, puderam revisar a matéria e realizar alguns “simulados”, com o auxílio de provas de concursos anteriores. Nascia, também, uma profunda e sincera amizade entre os três, isolados na parte alta da ilha e cercados pelo silêncio do dia. Nas primeiras noites, no entanto, acordavam com o ronco dos motores dos aviões Convair 340, Douglas DC-3 e Curtis Commander das antigas empresas Aerovias Brasil, Varig, Lóide Aéreo e outras, em ajustes ou manutenção... Mas logo se acostumaram àqueles ruídos noturnos que, mal sabiam, iriam acompanhá-los por mais quatro anos. E, por falar em amizade, dois desses três candidatos seriam do mesmo camarote nos 2º, 3º e 4º anos da Escola. E, como 2° Tenentes, todos esses três candidatos foram servir no mesmo contratorpedeiro, o saudoso e arisco CT PIAUÍ. Infelizmente, um deles não mais está entre nós.

 

Voltando ao passado.... E chegou o dia da primeira prova, 4 de janeiro de 1965. Cerca de 120 candidatos, que almejavam uma das 15 vagas, foram distribuídos pelas salas do 3º pavimento, de acordo com o número de inscrição. Em meados de janeiro, alguns jornais matutinos divulgaram o resultado das provas escrita. Doze de nós fomos aprovados na fase inicial: Luiz Victor Seize (inscrição n° 002), Miguel Teixeira de Carvalho (027), Carlos Alberto de Alvarenga Cota (048), João Luiz Soares (067), Walter Azeredo (069), Paulo de Tarso de Oliveira Leme (074), Eduardo Martins Franklin (086), Ivan Magno de Carvalho (109), Luiz Antonio Monclaro de Malafaia (113), Umberto Luz de Aguiar Junior (114), Afonso Barbosa (115) e Fausto Silva (116).

 

Em 26 de janeiro de 1965, às 1230h, os candidatos “civis” e os oriundos dos Colégios Militares compareceram ao SSPM (que, na época, funcionava na Av. Presidente Vargas, no 5º andar do edifício Lowndes) para o então chamado Exame de Aptidão Profissional (psicotécnico). E, no dia seguinte, nós, os “civis” já estávamos na EN para a inspeção de saúde.

 

Dos 12 “civis” aprovados nas provas escritas, 11 se apresentaram à Escola para dar início ao “período de adaptação”, na segunda semana de fevereiro, juntamente com 44 candidatos oriundos dos Colégios Militares. A bíblia da ocasião, a “Nossa Voga” foi lida e relida de cabo-a-rabo! Na última semana, passamos a contar com os colegas que concluíram o Colégio Naval. Fomos, então, mesclados e divididos em 4 turmas para a última fase da adaptação. Formava-se, naquele momento, a turma que, em 1968, seria denominada Turma Almirante Cox. Nascia, então, a sólida amizade que nos une até os dias atuais!

 

Para os “civis”, tudo era novidade, tudo era diferente: alvorada, faxina, rancho, ordem unida, etc... O que dizer, então, das palavras com significado completamente distinto do que conhecíamos: reforma, onça, safar, pegar, gurnir, etc. No primeiro dia da adaptação, ao sair do ônibus e entrar em formatura (ainda que disforme...), um calouro foi premiado com uma espinafração: não estava de terno! E com barba mal feita (na verdade, seu rosto era quase imberbe) e com cabelo grande (e olha que ele fora a um barbeiro paisano, na véspera, para não dar chance ao “inimigo”)! O dia começara bem...

 

Primeira atividade do dia, depois de colocarmos o uniforme de “adaptando” (a então chamada “calça far-west”, camiseta branca e tênis): corte de cabelo geral. E o candidato “civil”, em sua santa inocência, ao sentar-se na cadeira do barbeiro, pede ao fígaro que lhe faça, também, a barba. Gargalhada de alguns barbeiros e sorriso discreto daquele que seria o amigo de todos nós, sempre pronto a quebrar o galho dos Aspirantes (safava rapidinho, na hora da licença, ao sermos barrados na inspeção por cabelo grande): CB-BA Duque! E acrescentou: “essa não é a norma da casa, Aspirante! Mas, como o Sr. está na onça, vou passar, rapidamente, uma navalha”. Ao térmio, sugeriu ao “paisano” que fosse à cantina para comprar pincel, creme de barbear e “gillette”. Grande figura, o Duque.

 

E no segundo dia, o calouro desembarcou do ônibus de paletó, gravata e sapatos brilhando. E, importante, com seu “kit” de faxina completo, na maleta! A primeira ordem unida foi um insucesso completo: descoordenação geral... O pessoal do CM, calejado nesse tipo de exercício, procurava nos ajudar, com orientações adequadas. E a tal da “coordenação motora”? Teve gente que demorou muuuuito tempo para encontrá-la.... Rs rs rs rs. Alguns meses depois, já com a turma mais adestrada e integrada ao Corpo de Aspirantes, volta e meia escutávamos o célebre bordão “não estou uvindo u muvimento de braçu”... Quem, com saudade, disso não se lembra?

 

Concluída a adaptação, em 1° de março de 1965, 125 jovens transferidos do CN e dos CM e aqueles aprovados no concurso, sentávamos Praça como Aspirantes e éramos matriculados no 1° ano da Escola Naval. Oficialmente, estava inaugurada a fase de calouro! Mas, não foi tão sofrida como esperávamos. Na maior parte das vezes, os trotes se resumiam a “faxinas”, brincadeiras e gozações. E por falar em termos e expressões novas, vem a mente o acontecido com um outro “civil”, na primeira semana de aula: após a calistênica e carteado para uma faxina em famoso camarote do 2° pavimento, tão logo recebe o enérgico comando “cai de boca na cama”, sem titubear, abre a boca e se joga sobre os lençóis da primeira cama que vislubra e, ainda por cima, gritando “Ahhhhhhh”. Os veteranos caem ao chão de tanto rir... Acabou ficando coxado do camarote. Coisas de calouro!

 

E, finalmente, após a divertida noite de São Bartolomeu, com o inesquecível concurso de fantasias onde a linda Cleópatra foi a grande vencedora, um saudável e seleto grupo de jovens fazia seu Juramento à Bandeira, na manhã do dia 5 de maio de 1965. Orgulhosamente jurávamos servir à MB e à Pátria, com Dedicação, Amor, Alegria, Renúncia e Sacrifício, como bem descrito no item II – Exortação, da Ordem de Serviço nº 0018/1965 do Diretor da Escola Naval. Recebemos os sonhados espadins e muitos de nós (os oriundos dos CM e os “civis”), pela primeira vez, baixamos terra envergando o jaquetão azul com seus botões dourados e espadim brilhando.

 

Estávamos, a partir daí, definitiva e perfeitamente integrados ao Corpo de Aspirantes da ESCOLA NAVAL.

 

“UM BRADO LEVANTEMOS,

À NOSSA RAINHA,

HIP, HIP, HIP, RÁ!

VIVA A MARINHA!!!!!”

 

Queimamos as pestanas ao longo dos 4 anos acadêmicos, amenizados pelas esperadas Semanas do COMCA, a divertida Operação Quebra-Nozes (com direito a desembarque em EDVP e muito tiro de festim; alguém poderia se esquecer da senha PATESCA e da contra-senha MARAMBAIA???) e as Viagens de Instrução para Angola (ainda “portuguesa”), Argentina e Uruguai. Bons tempos!

Tem, também, o caso de um Aspirante “civil” que, garboso em seu uniforme de gala (jaqueta, espadim, luvas e pelerine) se dirige ao Clube Naval para ir ao seu primeiro Baile de 11 de Junho. Como estava um pouco frio, resolveu tomar um cafezinho no antigo Tabuleiro da Baiana, ali pertinho, quase colado ao Clube. Para quê??? Todos se lembram da pelerine, não é mesmo? Pois é... a menina que servia o café condoeu-se de ver um militar, tão jovem, já mutilado pela falta de braços!!!! Mas isso é outra história...

 

E, de repente, em uma bela manhã do dia 13 de dezembro de 1968, oitenta e cinco ansiosos Guardas-Marinha dos Corpos da Armada (62 GM), Fuzileiros Navais (16 GM-FN) e Intendentes de Marinha (7 GM-IM), orgulhosamente, recebíamos as almejadas espadas. E, a seguir, à Pátria fomos servir......

 

“ADEUS MINHA ESCOLA QUERIDA!

ADEUS, VOU À PÁTRIA SERVIR.

ADEUS CAMARADAS GENTÍS,

ADEUS, ADEUS, ADEUS,

EU VOU PARTIR, EU VOU PARTIR!!!!!”

 

Luiz Antonio Monclaro de Malafaia

Contra-Almirante (Ref)

Maio de 2019

 

 

7-EXCELENTE CRÔNICA EM COMEMORAÇÃO DOS 55 ANOS DA TURMA. AUTORIA DE UM ILUSTRE COXIANO! PARA TODOS OS COLEGAS, A DESPEITO DA ORIGEM E DO TEMPO DE MARINHA.

 

55 ANOS DA TURMA COX

Nunca havia me manifestado neste grupo, mas agora com esse jubileu (55 anos) acho ter chegado a hora. Ao rever as mensagens dos colegas é uma verdadeira volta ao passado, principalmente nas palavras do Paulo Afonso. Me recordo do curso Tamandaré, na esquina das ruas Gonçalves Dias e Ouvidor. Dele saíram muitos dos colegas que aqui escrevem. Era um sonho de todos nós estudar em alguma escola militar (CN, MM ou EPC do Ar). Na época era o que se dispunha. Ao ser chamado por telegrama, que diga-se de passagem, era bem demorado, talvez seja um dos dias mais felizes para todos nós vermos o esforço recompensado. Os que não eram da cidade do Rio de Janeiro como eu, por exemplo, sou da região serrana (Petrópolis) do Rio de Janeiro tivemos que nos apresentar no 1° DN e encaminhados para o CIAW. Antes havia feito exame clínico no HCM e no Marcílio Dias hospital este, que no futuro, teria um relacionamento mais próximo.

 

Fomos colocados em um trem especial da Central do Brasil que nos deixou em Mangaratiba para embarcar no Aviso para Angra. Viagem essa que nunca esqueço por ter "visitado" todo o meu café da manhã. Chegando a Angra lá estava ele, a concretização do sonho. O CN majestoso, isolado em uma enseada. Os primeiros dias foram de adaptação. Tudo era lindo. Mas, no dia-a-dia as coisas começaram a apertar. Quem não se recorda das aulas de Calistenia na pista poliesportiva orientadas pelo cabo Magalhães (nunca me esqueci esse nome) que nos mandava correr até a exaustão. Nessa ocasião, causava inveja como o Matos subia a corda com as pernas em ângulo reto. Para nós apenas subir já era uma façanha. Até que chegou o dia que perguntaram quem sabia nadar e lá fui eu com a grande "experiência" de nadar em poço de água corrente que descia das montanhas. Não deu outra, batia braços e pernas, mas não saia do lugar até ser retirado e ficar batendo pernas na praia para aprender a nadar. Mas os grandes desafios eram o banho frio, não, gelado, após os exercícios físicos e as aulas matinais (após o café da manhã). Eram terríveis, muito mais do que o horário de estudo após o jantar. Nessa época, começaram a brotar novos desafios em alguns colegas: se realmente era esse o nosso desejo, onde eu me situo. Após o primeiro ano sai do CN e fui para curso preparatório para o vestibular de medicina. Ficando excedente da FNM, me enviaram para Universidade Federal do Amazonas, onde iria ser fundada a Faculdade de Medicina e fui matriculado na primeira turma. Por coincidência, se não me engano, essa nossa turma do CN passou aqui pela cidade, a passeio ou conexão para outro lugar. Posteriormente, retornei ao Rio de Janeiro onde conclui o curso de medicina e me especializei em Neurocirurgia na equipe do Dr. Paulo Niemeyer, neurocirurgião que dispensa apresentação. Trabalhei em Hospitais aí no Rio de Janeiro (Souza Aguiar e Getúlio Vargas), quando tive contato com um colega de especialidade nada mais do que o chefe de Neurocirurgia do Hospital Naval Marcílio Dias (Dr. Murilo Cortes Drummond e para a MB Almirante Murilo Drummond). Como esse mundo é redondo. Posteriormente, retornei a Manaus como professor de Neurologia/Neurocirurgia, com mestrado e doutoramento pela Universidade de São Paulo na área de Neurocirurgia (não podia ser por menos para um ex-aluno do CN). Lembro-me muito bem que o Tikara Otomo também compartilhava desse ideal de cursar medicina, mas perdi o contato com ele.

 

Apenas um ano de convívio entre vocês, bastou para deixar gravados em minha memória momentos que jamais serão esquecidos. Daria para escrever muito mais só com aquele ano. Imaginem vocês que passaram vários deles.

 

Para concluir, desejo um excelente dia e que a união que nasceu no CN em 1963 continue fortalecida, após a chegada dos novos amigos.

 

Um forte e fraterno abraço a todos, especialmente aos colegas do meu corredor: Alcides, Thompson, Neves, Vinicius, Cambiaghi (esses 2 últimos meus vizinhos de armário), Vieira, Silva Reis, Destri, D'ávila, Fernandez, Frazão, Silva Filho, Motta, Wilton, Porto, Massayoshi (que posteriormente soube ser daqui de Manaus).     

                                           

Ps: esta crônica é sumário das lembranças do, então, aluno Eurico-1079. Foi  aluno por um  ano do Colégio Naval, em 1963 (na época tinha 15 anos). 

      Hoje o nosso Professor / Doutor Eurico reside e trabalha em Manaus. VER FOTOS.

 

 

 

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6-Excelente crônica do ex-aluno Lenine Horta sobre o período vivido no Colégio Naval em 1963.

 

"Caro Fernandez, agradeço sua atenção em permanentemente me enviar notícias e fotos dos companheiros coxianos. É agradável exercício mental, tentar reconhecer na enfraquecida memória as imagens de bons companheiros, lembrando, na maioria das vezes, com alegria, momentos simples do nosso cotidiano naval em tempos finais de "anos dourados". Muito bom recordar com saudade de companheiros ausentes, muitos prematuramente, como .... Ribeiro (seria um excelente oficial), Cidra, Fausto, e tantos outros que já desembarcaram desta "comissão". Há uma imensa satisfação ao rever, via fotos, vários companheiros com quem não tivemos o prazer de convívio próximo, ou porque deixaram a MB, ou fazem parte de outro corpo naval. Confesso que relativamente a alguns de menos contato, fico na dúvida se seguiram carreira naval ou não: como Soares, o diácono (?), o "Jackson (veio do civil?) Os fuzileiros estão bem presentes na memória, um deles ficou conhecido por "cavaladão" não por atitude cavalar mas devido a sua potência atlética. Falando de codinomes, pude ver depois de muito tempo o "carvãozinho" assim tratado pela turma carinhosamente em referência à semelhança com uma personagem de desenhos infantis... Não tenho visto o "macacão", cuja família de origem cedeu outros "macacos" pra a MB. Não é preciso dizer mas deixo consignado que tais apelidos, como outros não citados, tinham carater afetivo entre bons companheiros de vida profissional, então os ,mencionei brincando, com todo respeito que merecem e lhes é devido. Enfim, tenho plena convicção de que faz muito bem a qualquer um de nós, receber notícias e fotos. Estimado "Zé", agradeço seu trabalho voluntário. Tive especial satisfação de vê-lo (em foto) esbanjando alegria! Saúdo meus bons companheiros da Turma Alte Cox. Felicidades a todos e abraços fraternais! Até qualquer hora!

 

Cabe lembrar aqui, pois situa-se no contexto de suas lembranças, o mais expressivo dos prefixos entre os calouros, ao ser indagado pelos veteranos :Qual o seu prefixo, aluno Horta? Resposta imediata e jocosa: "Jardim pomar das hortas maravilhosas", senhor!

 

Ps:

1) Fernandez, solicito dar conhecimento aos demais coxianos, se possível, o teor desta mensagem endereçada a você e também à própria turma;
2) volto ao texto pra registrar entre os que foram honrados com codinomes um caso de homenagem a um gentil animal "pet" que frequentava nosso pátio do Colégio Naval, se não me engano, o simpático animal costumava acompanhar os pequenos deslocamentos em marcha de nossas fileiras. Aos que, dentre nós, viveram alegrias e agruras daqueles idos, deixo como exercício mental a identificação do companheiro (e, portanto do cão) com a dica de que é uma das boas "cabeças" da turma, sempre entre os primeiros divirtam-se!

 

 

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5-EXCELENTE CRÔNICA EM COMEMORAÇÃO DOS 55 ANOS DA TURMA. AUTORIA DO RAIMUNDO, ORIUNDO DO CMRJ! PARA TODOS OS COLEGAS, A DESPEITO DA ORIGEM E DO TEMPO DE MARINHA

 

BUMBO NO PÉ ESQUERDO

 

     As primeiras impressões, em Villegagnon, de um calouro egresso do Colégio Militar

 

O telefone tocou no meio da manhã de um dia de minhas férias e fui avisado que era o Comandante Elígio. Como não nos falávamos havia algum tempo (mea culpa), tive um pensamento sombrio: alguém vestiu o pirulito, pegou a CR e foi-se apresentar a São Pedro...

Felizmente, a voz do outro lado da linha, com seu inconfundível sotaque, estava alegre e espantou logo os fantasmas: pediu que eu escrevesse algo sobre a chegada a Villegagnon de minha turma do Colégio Militar. A proposta, feita diretamente por um dos mais celebrados vates que vestiu nosso uniforme, envaideceu-me, mas ao mesmo tempo impôs-me pesada responsabilidade. Sobretudo à vista de outros colegas ex-CM de reconhecidos talento e espírito. Era impossível, todavia, fugir ao desafio.

 

A montagem da história

Eu já tinha os protagonistas: jovens em fase peculiar de suas vidas, já moldados por organização onde a tradição era muito cultuada e que lhes instilou um conjunto de valores desde o final da infância até o início da vida adulta. Tudo isto deu a todos a certeza de pertencimento a um grupo bem particular e fortemente coeso.

 

Já tinha também o enredo e o cenário: estes jovens chegaram a uma Instituição a que decidiram dedicar suas vidas. Lá aprenderiam outras tradições, outros costumes, ainda que os principais valores fossem os que já conheciam e seguiam.

 

Definidos personagens, enredo e cenário, ficou faltando o roteiro. Que retrato poderia ser pintado, de memória, sobre fatos ocorridos há mais de meio século?

 

Optei por montar um mosaico de episódios colhidos durante nossas primeiras semanas na Ilha, aparentemente banais, mas que fizeram parte de nossa vida. Não pretendi seguir uma ordem cronológica; isto seria irrelevante em janela de tempo tão estreita e há muito fechada. O pequeno período, pouco mais de 1 mês, pareceu-me mais do que suficiente; afinal, demorou pouco para que não se notasse a menor diferença entre os egressos do CN e do CM.

 

Os primeiros passos

Depois da nossa formatura no CMRJ, a Turma "Companheiros Leais – 1958/1964" (seu nome até hoje), foi dissolvida. Não haveria mais toques para reunir os cerca de 440 componentes, que partiram em busca de seus caminhos.

 

Para o primeiro voo fora do ninho, era natural que o pessoal se agrupasse para enfrentar o desconhecido. E aí começa minha lembrança mais remota do que viria a ser a Turma Cox: um pequeno grupo de jovens, a maioria tijucanos, seguindo a pé pela estrada que contorna o Santos Dumont. Não sei se já se chamava à época Avenida Almirante Sílvio de Noronha. Paramos bem na cabeceira da pista para ver um DC-3 decolar, passar rugindo sobre nossas cabeças e subir lentamente rumo ao Cara de Cão, desviando-se do Pão de Açúcar. Um espetáculo novo para a maioria.

 

Esta caminhada soaria estranha a um jovem de hoje; mas para nós não havia outro jeito, afinal naqueles tempos ninguém tinha carro e taxi (nem havia tantos como atualmente) seria um luxo impensável para quem estava sempre sem dinheiro.

 

Afinal, a Ilha

Passamos a antiga ponte (havia apenas uma) em silêncio reverente e chegamos ao inexplorado. Daquele novo mundo sabíamos apenas o que mostravam as antigas notas de 1 Cruzeiro. Todos da nossa época se lembram: Tamandaré na frente e, no verso, a Escola Naval vista de Sudeste. Era uma imagem fria, de paredões encimados por prédios de aspecto austero e árido, sem uma árvore visível; bem diferente do atual Pátio Inhaúma. Muito menor do que é hoje, retratada com muralhas erguendo-se do mar, a Ilha lembrava-me uma prisão, talvez uma imaginária Alcatraz dos filmes preto-e-branco dos anos 50.

 

Tive uma grata surpresa ao pisar o chão de Villegagnon pela primeira vez. Na parte baixa da Ilha, a Noroeste, encontrei árvores frondosas que apagaram a impressão sombria que havia gravado na mente. A ponte dos escaleres, cuidadosamente caiada, com os turcos em amarelo e os cascos brancos, fazia um contraste alegre com o azul das águas da baía e dava um colorido inesperado e animador. Seria aquela a minha nova casa e, ainda que meio desconfiado, confesso que gostei dela.

 

Conto agora com a indulgência do leitor para uma quebra na narrativa, mas acho que vale a pena. Já que mencionamos a ponte dos escaleres (interessante, mas nós nunca a chamamos de "pier") guarda um segredo que talvez a maioria desconheça.

 

Os primeiros submarinos da MB, construídos na Itália, na primeira década do século passado, deram baixa em 1934. Em 1938, partes do casco do primeiro deles foram utilizadas nas fundações dos pilares da ponte dos escaleres da nova Escola Naval (ref: www.submarinosdobr.com.br/classeFF.htm).

 

A ponte, caminho para nossas saudosas patescarias, perdeu sua elegante simplicidade e praticamente desapareceu sob novas estruturas. É importante que saibamos que, no meio e embaixo de tanto concreto novo, a "nossa" ponte, assentada sobre o velho submarino, continua por lá, como testemunha de uma história de que, mesmo modestamente, fizemos parte.

 

O primeiro lance

Chegamos na Sala de Estado, onde tudo era novidade para nós: os estojos de munição de 12 polegadas dos classe Dreadnoughts, com trabalhos marinheiros e os amarelos brilhando, o apito do Contramestre e nosso primeiro contato com o fonoclama.

 

Dali fomos despachados para a Secretaria, onde um cavalheiro sisudo em seu terno escuro, sentado junto à janela, recebeu nosso grupo ressabiado. Uma placa sobre a mesa indicava que seu nome era "Feio", apropriadamente na minha avaliação, mas com todo o respeito, devo ressaltar.

 

O Sr. Feio nos deu as boas-vindas e pegou os documentos que lhe entregamos. Por ser muito míope, colocou-os poucos centímetros adiante do nariz, o que em si não encerrava qualquer comicidade. Infelizmente este cenário, aliado ao nosso nervosismo, não ajudou. Um dos presentes (vou omitir seu nome, era meu amigo e mais tarde faria parte de meu primeiro camarote) achou graça e ainda tentou abafar o riso. O efeito foi bem pior com os barulhos que fez; e, perdendo o controle, todos rimos. Ficamos tremendamente embaraçados, ao pensar que um riso nervoso pudesse ser tomado como zombaria; só que o mal já estava feito. O constrangimento pesou no ar.

 

Foi um mau começo, pensei. Nem bem tínhamos chegado e já dávamos um "lance" (ainda não conhecíamos o jargão, mas sentimos que tínhamos pisado na bola). Imaginei o que aquele senhor tão distinto estaria pensando a nosso respeito. No mínimo, que seríamos um bando de cretinos.

 

A requintada alfaiataria naval

Nossa primeira faina geral (uma nova expressão para o vocabulário) foi o recebimento da andaina de uniformes (ainda mais uma). O cáqui com detalhes em vermelho (cor que, no novo vocabulário, era chamado de "encarnado"), que vestimos durante 7 anos, seria substituído por nossas novas cores. Ainda em trajes civis, fomos conduzidos a um paiol, junto à piscina.

 

As peças eram entregues junto com um saco de viagem, que nos acompanharia até o final do curso.  O encarregado da distribuição nos olhava de alto a baixo, decidia qual seria o tamanho de cada freguês e entregava-lhe uma pilha de uniformes internos: 3 brancos, 2 mesclas e 1 terrível e desconfortável cheviot (pior para os carneiros ingleses que cederam seu nome, condenados a usar aquela lã áspera o ano inteiro). Havia também os calções de esporte, camisetas, o "vibrador" azul com as letras "EN" brancas (imagino que não seja mais chamado assim), toalhas de banho, roupão de natação, enfim, um monte de peças que íamos fazendo desaparecer dentro do saco de viagem.

 

Vi que havia algo errado ao desdobrar uma imensa camisa mescla (no CM a chamaríamos de "gandola"). O paioleiro, um cabo velho, não gostou da dúvida sobre a precisão de seu olho clínico e descartou qualquer tentativa de troca: "...é assim mesmo, vai acabar ficando bom, encolhe a cada vez que se lava...".

 

Ao vestir os uniformes internos pela primeira vez, vi no espelho um grotesco espantalho: uma roupa de dois números acima, dura como lona de vela, e um caxangá que descia até as orelhas. Não havia como manter um ar minimamente digno; eu era a visão completa do "bicho", como chamávamos no CM essa espécie inferior a que eu voltava a pertencer.

 

Vida nova, nome novo

Vários de nós tivemos que mudar os nomes-de-guerra, quando esses já eram utilizados por outros mais antigos; afinal, nem todo mundo poderia se chamar Sepúlveda ou Imbassahy. Foi assim que depois de ser "Lopes" por 7 anos, passei a ser o "Raimundo"; "Martins" virou "Torres"; "Quintanilha" tornou-se o "Amin"; "Amaral" virou "Nilson Manoel" (mas acabou sendo para sempre "Manolo"). Citei apenas alguns, foram muitos mais, mas não me consta que isto tenha gerado crises de identidade.

 

Antiguidade é posto

No CM, no ato da matrícula, recebíamos um número que nos acompanharia até o desligamento. Este número, em si, não dizia nada, mas era assumido pelo aluno como um segundo nome, por vezes o primeiro. O número, e não o nome-de-guerra, era usado nas chamadas e era a primeira informação exigida em uma interpelação disciplinar. Era uma marca tão forte que nunca nos esquecemos de nosso número e o dos companheiros mais próximos. Uma reminiscência que me faz rir até hoje é por conta de nosso saudoso companheiro Martins, ainda no início do ginasial. Ele era o aluno "2" e seu nome-de-guerra era "Torres". Nas chamadas, feitas por número, respondia gritando seu nome, como deveria. Só que soava algo como "Dô!" (chamada), "Tô!" (resposta); o inspetor ficava furioso, achando que seria brincadeira, a turma ria e o Martins ficava ao rubro, com aquele jeitão dele. Uma bobagem, mas uma lembrança que guardei há uns 60 anos. Como passa rápido a vida...

 

Voltando a falar sobre níveis de precedência no CM, todos os alunos eram considerados iguais. A única hierarquia aceita por todos era o número de divisas na manga, que indicavam os "anos de casa". Havia, no entanto, a figura do "xerife" de cada turma, logo abaixo do bedel (um inspetor civil) ou do sargento monitor. O "xerife" em princípio era um oficial-aluno (leia-se, um CDF) ou, na falta deste, um aluno qualquer designado pelos Oficiais (do EB) comandantes de companhia, bateria ou esquadrão, dependendo da Arma. Comandava a respectiva turma nos deslocamentos pelos espaços abertos, necessariamente em formatura e em passo ordinário. Seria aquele que levaria a culpa se a disciplina saísse dos eixos e, portanto, sua posição não era invejada.

 

Em Villegagnon veio a novidade para o pessoal do CM: a instituição da "antiguidade" levada bem a sério, algo que já corria nas veias dos egressos do CN. Cada um recebeu um número que representava a precedência na turma e que mudaria a cada ano, em função dos resultados acadêmicos.

Com o tempo, todos perceberam que, para o bem ou para o mal, qualquer vivente teria o seu lugar e ordenação entre seus pares e que jamais haveria dois seres de igual precedência. Os civis talvez não entendam, mas isto nunca deixou de funcionar bem e é um dos pilares do nosso respeito mútuo e camaradagem.

 

As diferenças iniciais

O calouro que veio do CM era visível de longe, com seus uniformes mal-ajambrados. Por outro lado, os companheiros do CN, com os panos já amaciados e devidamente descorados, passavam despercebidos à distância. Isto era muito conveniente para atravessar o Pátio Saldanha; um disfarce que evitava "carteações" a partir das janelas dos corredores dos camarotes. A diferença continuava na hora da licença, sábado pela manhã, quando baixávamos terra, nós de terno, olhando com inveja os "outros" de jaquetão.

 

A diferença não se resumia aos aspectos externos. Não tínhamos ainda familiaridade com os usos e costumes da instituição, a começar pelo desconhecimento do jargão falado. "Escamar-se" era a arte de, discreta e dissimuladamente, fugir de situações desagradáveis. "Arvorar" para nós nada queria dizer, desconhecíamos os comandos do patrão para os remadores. "Cartear" não tinha nada a ver com o baralho; era o ato de alguém designar outrem, mais abaixo no sistema social (nós, naturalmente), para alguma tarefa em geral desagradável. O termo podia também ser usado com o sentido de arremessar ou, ainda, fazer uma escolha aleatória; vá entender...

 

O problema da nova linguagem deu origem a episódios pitorescos. Um colega ex-CM, em seu primeiro serviço de Ronda, anunciou com voz empostada no fonoclama: "Voltem à recreação!", em vez de "Volta à recreação". Ele, que nunca tinha visto alguém dar a volta em uma espia, pretendeu corrigir o que julgava ser um erro na conjugação do verbo. Só que o Chefe-de-Dia (outro nome curioso para nós ex-CM) não apreciou a iniciativa e lhe manifestou seu desagrado e desaprovação em termos nada amistosos. Nosso colega assumiu seu erro com a desolação (fingida, é claro) que a situação requeria e, logo que saiu de cena, divertiu-se contando seu próprio lance. Rir de si mesmo era uma opção sábia do calouro.

 

Tudo isto mostrava claramente que nós, ex-CM, tínhamos chegado por último e éramos calouros dentre os calouros. Tenho a dizer que a camaradagem com que fomos acolhidos e a convivência diária em pouco tempo forjou a coesão do grupo, que se veio consolidando durante mais de meio século.

 

O período de adaptação

Esses foram os dias que marcaram o início de um rito de passagem. Pura força de expressão, a bem da verdade não houve passagem alguma. Éramos calouros e assim continuaríamos naquele ano que, aparentemente, nunca acabaria.

 

Antes do início do período letivo, fomos entregues aos cuidados de alguns veteranos do 4º ano, para iniciação aos usos e costumes de Villegagnon. Não sei se eles eram voluntários, mas imagino que não tivessem motivos para gostar de nós, pois estavam perdendo suas férias. Assim, fomos conduzidos no limite difuso que separava o trote da instrução militar, com o apoio da leitura do "Nossa Voga", repositório do todo os saberes que deveriam nos interessar a curto prazo.

 

Nessa ocasião, surpresa não muito boa, encontramos um antigo conhecido. Um dos "tutores" era egresso do CM, onde integrava um grupo de oficiais-alunos, último-anistas, que davam serviço no portão. Impecavelmente uniformizados, com seus coturnos polidos e capacetes brancos (impopulares, eram chamados de "penicos", mas nós é que éramos os alvos de suas copiosas excreções). Distribuíam broncas prodigamente, corrigindo posturas e atitudes das turmas que se deslocavam para o portão ao final das aulas. Tinham e usavam o poder de atrasar nossa saída por imponderáveis razões, fazendo-nos muitas vezes perder o bonde, meio de transporte dominante à época.

 

Foi inesperado ver essa imagem do passado novamente em ação; a voz ríspida e a cara de poucos amigos eram as mesmas, mas desta vez havia um inconveniente: éramos o objeto exclusivo de suas atenções. Havia também outros veteranos instrutores, que pegavam mais leve, ainda que deixando clara sua crença na nossa incapacidade de fazer algo direito. De todo modo, no período de adaptação as diferenças de origem foram-se diluindo e nosso grupo foi ficando cada vez mais homogêneo.

 

Quando o ano letivo começou, já sabíamos o essencial: calouros, como não podiam ser invisíveis, deveriam evitar ao máximo chamar a atenção sobre si; a Parada Matutina tinha algum sentido e se nós não o entendíamos era devido à nossa limitada compreensão; o tenebroso entorno do camarote 311 (Saraiva Ribeiro, Póvoa, Cavalcanti e Onecir) era um espaço a ser prudentemente evitado; os elevadores não podiam ser usados; o busto do Inhaúma jamais deveria ser encarado; guimbas de cigarro deveriam ser abertas, o fumo espalhado ao vento, o papel e o filtro guardados no bolso etc...

 

No que tocava à ordem unida, tivemos que passar por recondicionamento: o "sentido" não teria mais o choque de calcanhares com as pernas retas; seria marcado por batida do pé no chão, com flexionamento do joelho. Havia ainda o principal: doravante, o bumbo seria no pé esquerdo. Ficavam para trás sete anos em que a cadência era marcada no pé direito, coisa de milico.

Tirando-se isso, o resto seriam pequenos detalhes que pegaríamos com o tempo.

 

Quando nossa vida mudou para valer

Curiosamente não consigo me lembrar do dia em que ficamos de vez na Escola. Não houve nada ao estilo de Dante ("...Ó vós que entrais, abandonai toda a esperança..."). Apenas tivemos a clara certeza de que tínhamos saído da morada definitiva e voluntariamente, é bom lembrar. Nosso lar passava a ser aquele, no seio da nova família. Casa paterna, dali para diante, só nos fins-de-semana.

 

Para os ex-CN, acostumados com o licenciamento quinzenal, isto foi uma notável progressão de regime. Para nós, os ex-CM, a saída apenas aos sábados foi encarada sob viés negativo. Cariocas na grande maioria, livres na cidade todos os dias, o confinamento foi um fato novo com que tivemos que lidar.

 

Para ilustrar nossa relação com o ambiente novo e restrito, lembro-me do dia em que um telefone tocou em algum lugar por perto da escadaria para a parte baixa da ilha. Era uma campainha das antigas, metálica e estridente; o som familiar não fazia parte daquele mundo – remeteu o pensamento direto para casa. Uns dois ou três que estavam comigo riram bobamente, sem bem saber porque. Eu também ri; naquela hora pensei na minha casa, no outro lado da vida. Lembrei da voz de minha mãe falando com a empregada, do fundo sonoro da Rádio Nacional, sempre presente na cozinha. O que todas aquelas pessoas (e até meu cachorro) estariam fazendo naquele momento?

 

Hoje em dia será difícil explicar isto para alguém com menos de 25 anos, que não conheceu a época em que celulares não existiam. Os atuais Aspirantes não conheceram a ruptura das comunicações e nem entenderiam a correria, ao final do rancho, para as 3 cabines telefônicas de uso geral.

 

De todo modo, fomos aprendendo a lidar com o isolamento do mundo exterior e a descobrir o que haveria a fazer na Ilha. As opções não eram muitas: a presença de um calouro do salão de recreação, com suas revistas velhas e suas mesas de bilhar e sinuca, seria uma impensável heresia. Sempre poderíamos ir ao bar comprar cigarros ou um chocolate, mas seria insensato ficar por lá muito tempo. Ver televisão, nem pensar. Havia também a capela, no Pátio Inhaúma, sempre aberta e um abrigo seguro, mas um espaço relativamente pouco procurado.

 

Convenhamos que as opções eram muito poucas, mas isto teve seu lado positivo. Dentro da nossa ilha murada, cercada de água por todos os quadrantes, como convém a uma ilha, vivíamos pouco mais de uma centena de calouros, cercados por veteranos por todos os lados. Foi este isolamento que forjou a união do grupo; mais do que isto, a ideia de pertencimento a uma Turma, com identidade própria

 

A "Proa"

Chego aqui a outra das lembranças mais caras e antigas: a "Proa", como chamávamos. Um ângulo agudo da amurada, na extremidade noroeste da parte alta da Ilha; bem em frente de um antigo anfiteatro de motores (tivemos lá muitas aulas com "Caparelli Legal"). Acabei de verificar no Google Maps e a "Proa" continua lá, exatamente como a deixamos há mais de meio século.

 

Era onde um pequeno grupo de egressos do CM reunia-se, todos os dias após o jantar. Sendo ponto pouco movimentado, pois não era passagem para parte alguma, mostrava-se um refúgio seguro. Excelente lugar para bater papo e ver a cidade sob um ângulo novo, até então privilégio do pessoal de Niterói. Um espetáculo bonito de se ver, em especial o maciço da Tijuca recortado no sol poente, com as luzes começando a aparecer nos prédios do Centro. A linha da cidade estendendo-se para noroeste e terminando com a torre do castelinho da Ilha Fiscal, para além da pista do aeroporto. Dava mesmo para ouvir o rumor do "rush" de fim do dia, naquele perto-longe. Na hora em que chegávamos à Proa o carrilhão da Mesbla já tinha tocado a Ave-Maria, pontualmente às 18:00; mas continuava a marcar os quartos de hora com seu inesquecível som, grave e dolente.

 

Com o passar do tempo, o "banzo" arrefeceu e a Proa foi abandonada. Seus frequentadores a guardaram com cuidado no baú de memórias, como parte de nossa juventude, lembrança de alguns companheiros que já partiram e de nossas primeiras semanas na Ilha. Enfim, um pedaço do passado que merece ser revisitado.

 

Afinal, Aspirantes

Como antecipei na apresentação desta história, em pouco tempo deixou de haver diferenças entre nós, ex-CM e ex-CN. Estes, como irmãos de armas mais velhos, tiveram um importante papel em nossos primeiros passos.

 

A Turma, enfim, estava forjada, homogênea e com sua própria identidade. Não que eventualmente deixassem de ocorrer uma ou outra pequena rusga, como em qualquer família. Estabeleceu-se, no entanto, um companheirismo genuíno, com laços de confiança mútua.

 

A própria rotina da ilha, em nosso primeiro ano, encarregou-se de burilar as arestas e aprimorar o polimento de um conjunto harmonioso de jovens, física e moralmente saudáveis.

 

Pensando bem, não havia muito tempo para pensar na vida: alvorada às 06:00, seguida da parada matutina, faxina e arrumação do camarote (incluindo camas, armários e toalhas nos varais, segundo rígidos esquemas pré-definidos). Formatura no Pátio Saldanha, pequeno almoço, parada, ciclo de aulas da manhã, almoço, ciclo de aulas à tarde, prática desportiva ou instrução militar, cerimonial para a bandeira, jantar, uma curta recreação, estudo obrigatório (luzes do teto acesas), toque de recolher (ninguém mais perambulando em áreas externas), toque de silêncio (luzes de teto apagadas e conversas só em voz baixa). E assim terminava mais um dia, em que quase tudo que não era obrigatório era proibido.

 

Embora quase todos ainda ficassem estudando, os que desejassem poderiam então dormir. Havia, então, um fator complicador: o ronco dos motores a pistão, durante toda a noite, vindo do hangar de manutenção da Varig, a pouco mais de 500 metros de nossas janelas. Mas o hábito, como todos sabem, é uma segunda natureza.

 

Tudo recomeçava no dia seguinte, com os estalidos do fonoclama prenunciando o irritante toque de corneta. Isto de segunda-feira até o licenciamento sábado ao meio-dia, para os que não fossem barrados na inspeção ("Abrir fileiras", ... "Cerrar fileiras") devido a um colarinho mal engomado ou a um sapato pouco brilhante. Regresso para bordo aos domingos até as 22:00, nos ônibus que largavam da Praça XV, da calçada da antiga Bolsa de Valores.

 

Para quem não viveu a experiência, esta pode parecer pior do que realmente foi. Afinal, todos já haviam se dado conta de que algo havia mudado, que não haveria volta, que tínhamos uma nova família e que uma outra vida tinha iniciado, em um universo novo.

 

Estávamos então nos nossos primeiros dias em Villegagnon. As aulas mal tinham começado. As emoções de AMA, na voz monocórdia de Radival e nas páginas áridas do Granville, ainda se ocultavam nas dobras do futuro, para onde seguíamos despreocupados.

 

E assim foi o começo da trajetória, nos idos de 1965, dos ex-alunos do CM, que me propus a relembrar e cujas lembranças singelas pretendi compartilhar. Espero que esta narrativa tenha correspondido ao desafio do Elígio.

 

A pernada final da singradura

A Turma Cox já tem mais de meio século de história; o que não é pouca coisa. Podemos contemplar uma longa esteira a ré, sem dúvida bem maior do que o espaço que temos pela proa. O tempo, o senhor de nossa existência, continua a correr com uma velocidade que nos parece cada vez maior. É, portanto, uma boa hora para fazermos um balanço de nossas vidas.

 

Basta olharmos à nossa volta para constatar que, em um mundo individualista, é difícil encontrar um grupo como o nosso, que insiste em manter-se unido sem outro motivo que não a mais desinteressada amizade. Isto é raro e sublime.

 

Muitos dos companheiros, com quem demos os primeiros passos, destacaram-se, saíram da formatura e demandaram antecipadamente o porto de destino. Lá aguardam para receber nossas espias, como manda a cortesia naval. Será um alegre reencontro da Turma Cox, quando poderemos colocar conversas em dia e relembrar uma existência bem-sucedida e feliz.

Nestes 55 anos de convivência, cada um deu um pouco de si e recebeu em troca muito do grupo. Valeu a pena; estamos todos de parabéns.

 

Março de 2018


José Raimundo Lopes de Oliveira
Capitão-de-Mar-e-Guerra (Ref)

 

 

 

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4- CRÔNICA DOS 55 ANOS DA TURMA, DE AUTORIA DO PAULO AFONSO! PARA TODOS OS COLEGAS, A DESPEITO DA ORIGEM E DO TEMPO DE SERVIÇO NA MB

 

 

TURMA ALMIRANTE COX – 55 ANOS

 

A passagem pela Marinha, por mais breve que tenha sido, deixou marcas indeléveis nas vidas dos integrantes da Turma Almirante Cox, como bem podem atestar aqueles, que, por motivos diversos, retornaram mais cedo ao convívio civil. Tais marcas jamais serão extintas, porque os nossos dias na Marinha foram vividos intensamente, e foi nela que construímos a exemplar e eterna amizade, que reina no âmbito da turma há cinquenta e cinco anos, e que é a razão da sua existência.

 

A irreverência da juventude fez-nos, algumas vezes, reclamar injustamente de experiências passadas na Marinha, as quais, com a serenidade e a vivência da terceira idade, reconhecemos hoje terem sido de extrema e primordial importância em nossas vidas.

 

Viajando no tempo, muitos dos coxianos procedentes do Colégio Naval talvez considerem que os primeiros dias lá vividos, em março de 1963, também tenham sido os mais difíceis. Beliches desconfortáveis; alvorada às cinco horas da madrugada; ginástica no campo de esportes úmido e com pernilongos a nos picar; sapatilhas que produziam bolhas nos pés; ordem unida debaixo de sol escaldante; banho frio; fila para o rancho; ensino militar naval; parte prática; tudo corrido; muitas exigências; disciplina excessiva; caras novas; e, como se não bastassem todas aquelas dificuldades, ainda era praticamente impossível telefonar para casa. Os dias custavam a passar naquele duro e cruel período de adaptação. Ainda bem que, para amenizar, havia sessões noturnas de cinema no ginásio, e, nos fins de semanas, licença para Angra.

 

Na primeira licença para nossas casas, muitos dos que puderam desfrutá-la devem ter sentido vontade de não retornar ao Colégio Naval, mas algo mais forte dizia-nos que não devíamos esmorecer, pois era só o começo de uma longa e inesquecível jornada que teríamos pela frente.

Ao fim de pouco mais de um mês, iniciaram-se as aulas e conhecemos uma nova turma de veteranos. Passamos, então, a fazer parte de pelotões e companhias, assim como de turmas de aula: 11; 12 e 13, que eram compatíveis com as aludidas companhias. À rotina acima descrita, além das aulas matinais, foram acrescidos os enfadonhos estudos obrigatórios noturnos. Com a chegada das provas, apesar dos bizus, vieram algumas pembas, que nos alertavam para a necessidade de maior aplicação nos estudos.

 

A primeira licença de jaquetão fez-nos sentir importantes. Capas de boné e colarinhos engomados, jaquetões escovados, e sapatos muito bem engraxados passaram a ser preocupação constante de todos, nos dias de licença para casa. Nos intervalos das aulas que precediam a licença, havia um frenético corre-corre para a lavanderia.

 

Não havia, contudo, só contrariedade. As práticas esportivas, as patescarias e brincadeiras em horas de lazer, as licenças para Angra, e as visitas de familiares em fins de semana amenizavam bastante a permanência no Colégio Naval. E o mais importante de tudo foi que, alicerçada pelos óbices que juntos enfrentamos, foi lá que nasceu uma inusitada camaradagem, convertida, paulatinamente, numa sólida amizade, que iria durar para sempre, e que se tornaria a base da Turma Almirante Cox.

 

Passados dois anos, desfalcada de alguns membros, que regressaram à vida civil ou prolongaram a estada em Angra, mas reforçada por elementos oriundos da turma de cima, a Turma Almirante Cox seguiu para a Escola Naval. Lá chegando, recebeu novos componentes, muito bem selecionados, provenientes do Colégio Militar e de concurso.

 

A maior parte do numeroso contingente oriundo do Colégio Militar provinha da sua mais antiga unidade, situada no Rio de Janeiro, a qual, naquele ano, completava o seu septuagésimo sexto ano de atividade. Todavia, outras unidades daquele egrégio estabelecimento de ensino, como as de Fortaleza e Porto Alegre, também forneceram componentes para a Turma Almirante Cox. Devido ao ambiente hierarquizado e disciplinado de todas as unidades do Colégio Militar, vivenciado pela maioria desde o início do curso ginasial, a adaptação à nova vida foi facilitada, sobretudo porque a vocação para a carreira naval já havia despertado em seus corações. Ademais, por força dos vários anos de convívio escolar entre os seus componentes, o referido grupo procedente do CMRJ era bastante entrosado e unido, sendo que seus integrantes ainda possuíam diversos conhecidos dos tempos do CMRJ entre os aspirantes das turmas mais antigas, aos quais podiam pedir orientação, quando e caso fosse necessário.

 

O pequeno e seleto conjunto proveniente de concurso para a Escola Naval contava com dois ex-alunos do Colégio Naval, que lá haviam ingressado em 1964, com o curso colegial já completo. A menos destes, para os demais a vida militar-naval era novidade, ainda que alguns fossem filhos de militares. Mas a vocação, que os levara a decidir pela carreira naval, falou mais alto diante das possíveis dificuldades que viriam a enfrentar.

 

A acomodação dos aspirantes do primeiro ano em alojamentos, proporcionando-lhes uma saudável convivência coletiva, concorreu sobremaneira para a rápida integração de todos, e para o surgimento de novas amizades.

 

Uma data inesquecível foi o dia 5 de maio de 1965, no qual foi prestado juramento e foi recebido o imponente espadim, tão aguardado. Foi também nesse dia que muitos dos então novos componentes da turma usaram pela primeira vez o garboso jaquetão.

 

As viagens realizadas nos meses de janeiro e fevereiro, em 1966 para o Nordeste, em 1967 para Angola, e em 1968 para os países platinos, privaram-nos do desfrute das praias cariocas, de bailes de formatura, de festividades pré-carnavalescas, e do convívio da família e das namoradas, mas foram essenciais para o adestramento dos futuros oficiais e para maior integração da turma. O desconforto a bordo, sobretudo o calor das cobertas, era temporariamente esquecido quando baixávamos à terra, e tínhamos oportunidade de conhecer novos locais e novas pessoas. Tais experiências, além de inesquecíveis, também contribuíram muito para solidificar a amizade, que para sempre perdurará no seio da turma.

 

Tal como ocorrera no Colégio Naval, ao longo dos quatro anos passados na Escola alguns integrantes da turma retornaram mais cedo à vida civil, e outros retardaram em um ano a sua formatura. Para infelicidade da turma, nosso querido e saudoso amigo Ribeiro deixou prematuramente o mundo dos vivos no referido período, durante o qual também recebemos diversos reforços da turma de cima.

 

Os últimos cem dias na Escola foram ansiosamente contados. Chegado o dia 13 de dezembro de 1968, noventa integrantes da turma foram declarados guardas-marinha, e receberam suas espadas. E, a 12 de abril de 1969, foi iniciada a tão esperada viagem de instrução a bordo do NE Custódio de Mello, etapa final da formação dos oficiais da Turma Almirante Cox, e que também foi a última oportunidade em que esses estiveram todos reunidos, enquanto no serviço ativo. Terminada a viagem, cada um seguiu sua carreira na Marinha, mas foi sempre um prazer inigualável o reencontro com companheiros de turma a bordo de navios e estabelecimentos navais, nos cursos de aperfeiçoamento, nos cursos da Escola de Guerra Naval, e em diversas outras comissões.

 

Os que viveram algumas das experiências de vida acima resumidas, ou seja, os membros da Turma Almirante Cox, talvez sejam os únicos que podem compreender o real significado da intensa amizade nascida nos jovens corações daqueles alunos dos Colégios Naval e Militar, e aspirantes da Escola Naval, e que se tornou perene. Com o passar do tempo, esse vínculo mágico e poderoso também atraiu para o seio da turma as esposas, filhos e netos de seus membros, formando o que hoje denominamos família coxiana, a qual também congrega os distintos companheiros Winters e Jackson, que a abraçaram mais tarde.

 

Complementando as recordações acima descritas, cabe-nos refletir e agradecer a Deus pelo privilégio que nos está sendo concedido, de podermos celebrar juntos, prestigiados por nossos familiares, os 55 anos de existência da Turma Almirante Cox.

 

Lembremos também de todos os nossos saudosos companheiros, melhor dizendo, amigos, que já partiram deste mundo, mas que viverão eternamente em nossos corações. Agradeçamos também a eles, pela amizade e pela lealdade, que sempre nos devotaram.

 

Por fim, cumpre que expressemos nossa eterna gratidão à Marinha do Brasil, pois é graças a ela que existe a nossa venerável Turma Almirante Cox. Os ensinamentos exemplares que recebemos na Marinha, por menor que tenha sido o tempo nela permanecido, ajudaram a moldar nossos caracteres e, sem falsa modéstia, converteram-nos em verdadeiros e eternos patriotas.

Viva a Turma Almirante Cox!

Viva a Marinha!

Viva o Brasil!

 


 

 

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3- CRÔNICA ESCRITA PELO COMTE PAULO AFONSO, ALUSIVA AO 48° ANIVERSÁRIO DE INGRESSO DA TURMA COX NA MARINHA DO BRASIL. 

 

 

Queridos colegas e amigos coxianos,

Neste mês que hoje iniciamos, noventa de nós, entre os quais me incluo, estaremos completando 48 anos de ingresso na Marinha. Desses, alguns já nos deixaram, mas permanecerão para sempre em nossas memórias, pelo muito que suas amizades continuam representando para nós.

 

Embora, para a maioria dos noventa acima citados, a data oficial de admissão na Marinha seja 8 de março de 1963 (pelo menos é a que consta da minha caderneta registro), a primeira e histórica chegada ao Colégio Naval, lembro-me perfeitamente, deu-se no dia 5 de março, uma terça-feira. Perdoem-me, mas não me recordo se os procedentes dos outros estados, que não a então Guanabara e o Rio de Janeiro (diga-se Niterói), também fizeram aquela viagem de trem, da estação Dom Pedro II (a velha Central) a Mangaratiba, com baldeação em Santa Cruz, e de Mangaratiba à enseada Batista das Neves, no velho aviso Rio das Contas.

 

Seguindo as instruções que nos foram dadas, estávamos todos de terno. Tal como devia estar ocorrendo com muitos outros, algumas feições ali na estação Dom Pedro II já me eram familiares. A maior parte dos que eu conhecia provinha do curso preparatório que eu frequentara, no caso o Mallet Soares, em Copacabana. De outros, por ser bom fisionomista, eu lembrava da batelada de exames médicos e psicotécnico a que os aprovados nas provas acadêmicas haviam sido submetidos. Recordo-me, porém, de um fato inusitado, que hoje acho engraçado. Ao avistar o Rochão todo espaçoso, já sentado num dos bancos de um vagão, lendo calmamente um jornal, meu pai, que me acompanhara até a Central, perguntou-me: "Será que aquele ali também vai?" O nosso bom amigo Rochão era um garoto de 17 anos, mas como, ao contrário de mim, já tinha barba cerrada e um físico bastante avantajado, pareceu-me, na minha santa ignorância, bem mais velho. Então respondi para o meu pai: "Não, pai, aquele ali deve ser pai de alguém". Já contei essa história para o Rochão algumas vezes, no que ele sempre me respondia: "Tá de sacanagem comigo?" Depois, quando já estávamos no segundo ano do CN, meu pai veio a conhecer melhor o Rochão, por quem sempre me perguntava.

 

Talvez para aqueles cujos pais eram Oficiais de Marinha, ou que possuíam irmãos em turmas mais antigas (como o Cutrim e o Marco Antonio), o CN já fosse conhecido. No entanto, para mim e para a maioria era tudo novidade, pouco sabíamos do que lá nos aguardava. Hoje, depois de ter tido quatro filhos, e de já ter um neto com quatorze anos e meio (quase a idade que eu tinha então), compreendo perfeitamente as expectativas e apreensões que deviam estar povoando as cabeças dos nossos pais e/ou responsáveis com aquela nossa partida de casa, para um ambiente, de certo modo, desconhecido, onde, sem saber à época, viemos a crescer bastante.

 

O período de adaptação foi longo. Mais de um mês se passou até o início do ano acadêmico, que só aconteceu em abril (não lembro o dia). Até então, houve muita alvorada às 05:00h, seguida de ginástica com direito a picada de mosquitos no campo de esportes (com aquela sapatilha horrível que causava bolhas no pé), muita ordem unida e muita instrução militar naval. Nas horas vagas, trote por parte dos colegas mais antigos, que lá estavam, de saco cheíssimo, submetidos a um curso intensivo nas férias, decorrente da redução do curso do CN de três para dois anos. Na verdade, eles seriam a primeira turma que cursaria o colégio em três anos, mas antes que isso tivesse se consumado, ocorreu a tal redução, da qual também nos beneficiamos.

 

Ao longo da adaptação, à medida que foram resolvendo suas pendências nos exames de saúde, chegaram alguns colegas novos, os quais receberam os últimos números. O último a chegar foi o saudoso Feijó, que ficou com o número 1098. Com ele, aquele primeiro núcleo da turma Cox se completava. Eram 90 calouros e 8 repes.

 

Diferentemente do que hoje nos parece, aqueles dois anos em Angra custaram muito a passar. As licenças eram quinzenais, e aquelas duas semanas sem ir para casa pareciam uma eternidade. Por outro lado, aquela convivência longa e tão próxima serviu para a consolidação das nossas duradouras e verdadeiras amizades, pois passamos muitas experiências, boas e más, juntos.

 

Até a nossa formatura, em dezembro de 1964, aquele primeiro núcleo da Turma Cox sofreu algumas mudanças, ou melhor, variações, antes de ingressarmos na Escola Naval. Elas foram causadas por várias razões: pedidos de baixa; rigor excessivo em exame de vista; não aprovação acadêmica; e até por não aprovação disciplinar. Quanto aos pedidos de baixa, não tenho o que comentar, pois, apesar das partidas desses colegas terem sido sentidas por nós, elas se deram por opção daqueles e por razão de foro íntimo. No tocante aos que nos deixaram por problema de vista, creio ter havido, inusitada e equivocadamente, um excessivo rigor na quase totalidade dos casos. Até hoje não entendi por que isso ocorreu. Por pouco, também não fui nessa, pois a minha miopia (hereditária) começou a se manifestar ali no CN. Quanto às não aprovações acadêmicas, penso que poderiam ter sido evitadas com um pouco mais de estudo e/ou de sorte. Cada um sabe do que lhe aconteceu e por que aconteceu. As consequências, conhecidas de todos nós, foram a passagem de alguns membros da nossa turma para a de baixo, e também a chegada de outros membros da turma de cima. No que diz respeito às não aprovações disciplinares, também as entendo como tendo sido de excessivo rigor e injustas, pois, antes de mais nada, aqueles que sofreram essa iniquidade, e eu os conhecia muito bem, tratavam-se de garotos de excelentes caracteres, que não mereciam isso. Se os oficiais que lá estavam tivessem-nos conhecido melhor, o que era dever deles, essa decisão errada não teria sido tomada.

 

Na faixa etária em que nos encontrávamos quando ingressamos na Escola Naval, quatro anos pareciam uma eternidade. Ao longo dos quatro anos que lá vivemos, a futura Turma Alte. Cox recebeu um grande número de novas adesões. A maior parte delas foi, como todos sabemos, em 1965, ano de entrada em Villegagnon, quando a ela se juntaram diversos companheiros procedentes do Colégio Militar e de concurso, e outros que resolveram bisar o primeiro ano da EN. Até a formatura da turma, em dezembro de 1968, muitos dos nossos colegas optaram por deixar a carreira naval, e outros poucos migraram para a turma de baixo, enquanto que alguns da turma de cima transferiram-se para a nossa. O espírito de camaradagem e amizade da Turma Cox, que se iniciara em março de 1963, só fez fortalecer-se naqueles quatro anos em Villegagnon e nos mais de 42 anos que se passaram desde a declaração dos Guardas-Marinha de 1968.

 

Devido à vida agitada dos primeiros anos da carreira de Oficial de Marinha, a Associação da Turma Almirante Cox levou um tempinho para ser formalmente criada, mas, desde que isso aconteceu, os eventos por ela promovidos têm sido um sucesso e têm trazido muitas alegrias aos seus membros. No meu caso em particular, trabalhando e residindo fora do Rio desde o final de julho de 1979, não me tem sido fácil participar desses felizes acontecimentos. Todavia, mesmo impossibilitado de comparecer à grande maioria deles, sinto uma grande alegria em saber que são muitos os que os prestigiam com o seu comparecimento e , em alguns casos, com o de seus familiares.

 

Tal como aconteceu com alguns de nossos companheiros que se fixaram em outras cidades distantes do Rio, penso que, por razões familiares, será difícil para mim voltar a residir nessa minha Cidade Maravilhosa. Prometo, contudo, que esforçar-me-ei ao máximo para participar do maior número de eventos coxianos que me forem possíveis. Os poucos momentos que pude até hoje desfrutar nas companhias de alguns de vocês, nos almoços da última sexta-feira de cada mês, fizeram-me um bem incrível. Essa convivência renovada com antigos e verdadeiros amigos anima-me o espírito. Pena que isso não tem podido me acontecer com maior frequência, pois tem me sido imensamente gratificante sentir-me bem-vindo e benquisto em tais oportunidades. Tenho certeza que o mesmo occorre com todos que têm tido a felicidade de participar desses acontecimentos.

 

Há um tempo atrás, li algo que alguém escreveu sobre as antigas amizades, que me arrependo de não ter compilado e guardado. Penso, contudo, que consegui gravar a essência do que o escriba quis transmitir com o seu pensamento. Disse ele que quando reencontramos um parente ou um amigo antigo, que há muito tempo não vemos, é como se tivéssemos estado com ele há poucos instantes atrás. A felicidade é tão grande, que traz rapidamente à nossa lembrança os momentos passados em que estivemos com esse amigo, fazendo-nos esquecer daquele longo período em que não o vimos. Posso dizer que é isso que tem acontecido comigo toda vez que encontro um antigo amigo da Turma Cox.

 

Nos almoços e outros eventosda Turma, em que estive presente, pude constatar que há um determinado grupo de colegas que a eles comparece com maior frequência. E isso tem se confirmado pelas fotos que me são enviadas dos encontros aos quais não pude comparecer. Por essa razão, faço eco com o nosso querido amigo José, conclamando aqueles, cujas presenças têm sido raras ou ocasionais, a virem abrilhantar tais eventos com as suas participações. Digo isso porque tenho certeza que, ao reverem esses colegas, todos ficarão felizes, e eles também.

Da minha parte, desde já comprometo-me a esforçar-me para comparecer ao próximo almoço da turma, que deverá ocorrer no dia 25 de março. A menos que me aconteça algum impedimento, e nesse caso avisarei ao José com antecedência, lá estarei para ser iluminado pelo brilho das presenças de vocês.

 

Um forte abraço para todos,

Paulo Afonso

São Paulo, 1º de março de 2011

PS: Àqueles com memória melhor que a minha, ou que disponham de bons arquivos, peço que complementem lacunas que deixei sem preencher, como, por exemplo, a data de criação da Associação da Turma Alte. Cox.

MUITA SAÚDE E FELICIDADES PARA TODOS.

 

Obs: A data de criação da Associação da Turma Alte. Cox foi em 07/08/1986, de acordo com a ata 001/ATACOX.

 

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2- TEXTO ESCRITO PELOS COMTES FERNANDEZ /ELIGIO RELATIVO À CRIAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO TURMA ALMIRANTE COX

 

Com a promoção a Capitão de Corveta e por estarem uma grande maioria dos coxianos na área   Rio de Janeiro, alguns componentes da turma passaram a se reunir ao final do expediente no centro do Rio para beberem um whisk ou uma cervejinha gelada, num momento de descontração, ao saírem de suas organizações militares.

 

Participavam desses encontros frequentes vários coxianos. Citá-los poderíamos, mas para não cometer algum engano citaremos apenas dois deles, in memoriam: os nossos saudosos amigos Acatauassu e Mendonça, que estavam sempre presentes. Dessa maneira, passam a ser eles e os demais amigos frequentadores os precursores dos encontros. O lema que fazia o grupo se reunir era sugestivo e crítico: "MAIS DE 1 (UM) JÁ É REUNIÃO". 

 

O ano era de 1986. O grupo citado tomou a iniciativa de formar uma associação de turma. Esta ideia foi ratificada pelo nosso Chefe de Classe Raimundo que percebendo esta procura natural, esta tendência de reaproximação dos coxianos, tomou a iniciativa de escrever uma carta a cada um dos assíduos frequentadores. O Massayoshi recebeu e guardou como recordação a sua carta e esta foi colocada em anexo, como documento histórico.

 

Na carta, Raimundo aludia aos 23 anos de Marinha desde o Colégio Naval, aos 21 anos desde a Escola Naval e fazia referência a ausência dos componentes da turma por força de contingência de carreira e/ou por ter deixado a Marinha. O que pretendia Raimundo era viabilizar a decisão do Grupo Acatauassu/Mendonça e germinar a semente da uma associação da turma e pedia na carta, oficialmente, a todos a sua participação e colaboração.

 

O propósito da Associação era o de reaproximar aqueles que, no passado, pela convivência diária e aspirações compartilhadas forjaram um laço forte de companheirismo. Esta amizade se sedimentou de modo bem mais forte do que se imaginava unindo num mesmo tempo e lugar jovens oriundos do Colégio Naval, Colégio Militar e da Vida Civil em torno de um mesmo ideal: servir ao Brasil...

 

Assim em 1986 Raimundo tocava reunir oficialmente para a Turma Cox: criava a Associação Turma Almirante Cox. E, oficialmente, a primeira reunião para tratar desse assunto foi realizada em 7 de agosto de 1986, no varandão do Piraquê, às 19:00h. Nesta reunião não houve apenas chope e cerveja: foi realizada a primeira assembleia geral da Turma Cox. Participaram 28 componentes da turma, foi aprovado o estatuto da ATACOX, foi formada e aprovada a primeira comissão diretora, tendo como diretor-presidente o Raimundo, diretor-administrativo Massayoshi, diretor-social Wilton, diretor-secretário Mendonça, conselho fiscal: Villa forte, Frazão, Cutrim, Farjalla, Freitas, Carlos Cardoso, Cherém, Fernandez, Miró e Sousa.

 

Em pouco tempo a ATACOX oficializou encontros com os familiares e em 8 e 9 de novembro de 1986 houve um passeio em Friburgo com 77 pessoas; e, no final do ano, realizou a primeira reunião de confraternização anual na boite galera em 18/12/1986.

 

As diretorias se sucederam, e em 1992, quando houve um churrasco na Ponta da Areia, em Niterói, que contou com a participação do Tóffano-em cadeira de rodas- e do Wagner com suas filhas, o presidente da ATACOX, Sepúlveda, comunicou que estava com passaporte carimbado para ir para os Estados Unidos. A turma, então, pretensamente acéfala, voltou aos rumos na pessoa do nosso querido amigo e segundo-secretário Fernandez.

 

A nova gestão começou seus trabalhos por oficializar a pessoa jurídica da Associação da Turma Cox. Houve uma grande assembleia no Salão Conselheiros do Clube Naval com a presença de 54 coxianos, sucedendo-se um almoço. Nesta ocasião foi aprovado o novo estatuto, a nova diretoria, que salvo poucas mudanças é a que consta no site www.dcrdigital.com.br/atacox. Além disto foram aprovados encontros mensais da turma, encontros regulares com familiares e uma confraternização de final de ano.

 

Uma curiosidade: o nosso primeiro tico-tico nasceu numa dessas reuniões e o Fernandez foi o encarregado de rodá-lo. E ele foi rodado na gráfica do Comando do CFN. Pioneirismo coxiano.

Assim, a Turma Cox com seu destino de companheirismo e amizade cumprindo sua derrota de apreço e união se manteve unida dentro do que um dia, em 1964, foi vaticinado pelo aluno Araújo, no Gingilim N° 1/1963 : “a amizade será sempre o elo que nos unirá por toda a vida.”

 

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Links: 

01- Atacox

02- Atacox

03- Atacox

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1- CRÔNICA DA SAUDADE-ESCRITA PELO COMTE ELÍGIO EM 1986,POR OCASIÃO DA CRIAÇÃO DO SITE DA TURMA COX

 

Cento e três rapazes, vindo dos mais distantes recantos do Brasil, chegaram ao Colégio Naval. A maioria em março de 1963. A estação de trem da Central do Brasil foi o primeiro contato imediato coletivo dos jovens recém-selecionados para a Marinha. Familiares, namoradas, amigos... Todos estavam ali, orgulhosos. Tomamos o trem com destino a Mangaratiba. E as primeiras amizades aconteceram, bem como os primeiros trotes (afinal, o "repame" estava a bordo). A viagem passou rapidamente. Chegou Mangaratiba e o Aviso Rio das Contas. Embarcamos no nosso primeiro navio. A viagem era nova para muitos e a paisagem pitoresca e muito bonita. Logo, logo o Rio das Contas atracava na velha ponte do Colégio Naval ao som do Cisne Branco. O momento era tenso e maravilhoso. Tudo era novo: o Colégio soturno, a paisagem de um verde belíssimo... Parecia um sonho: o Velho Barco sisudo, austero, contrastando com suas amendoeiras acolhedoras... Ele estava bem ali, ao nosso alcance!

Para nós tudo parecia muito acolhedor também. Descemos do Aviso de modo muito civil; simulamos uma formatura. No trajeto da ponte ao pátio interno já víamos alguns veteranos com o caxangá caído na testa, quase escondendo os olhos.

Que maravilha! Estávamos na Marinha! Todos, orgulhosos, se deslumbravam com aquela chegada. Os alunos do Segundo Ano que nos receberam foram gentis, mas exigentes. A nossa adaptação seria feita por um grupo selecionado deles. Os demais, que já deveriam estar na Escola Naval, também estavam no Colégio (para azar nosso) porque estavam fazendo uma extensão do Segundo Ano, chamado de Curso Intensivo. Estavam, portanto, perdendo dias normais que seriam de férias.

 

No pátio interno a recepção militar:

 

Formatura por três!

Volta ao papo!

Sentido! Cobrir! Firme! Descansar!

Tá rindo de quê, aluno?

Desce! Paga dez!

 

Estes comandos foram os primeiros aprendidos e nos acompanharam por toda a vida. Aos poucos fomos compreendendo a voga. Demorava um ano...

 

Fomos em formatura para o Ginásio Esportivo onde recebemos as primeiras instruções e as boas vindas. E uma das primeiras ordens foi: cortar cabelo! O Grumbach com seus cabelos longos foi um dos primeiros. Tosado na máquina dois! Na marca! Doeu! Os barbeiros deliravam! A faina seguinte foi a de recebimento de uniformes: cheviot, branco interno, mescla, pelerine... E o sonho maior era o de vestir o imponente Jaquetão... Cor azul marinho com seus botões dourados. Aquele uniforme era a própria Marinha!

 

Os primeiros veteranos vociferavam: FARMÁCIA! Cadê a farmácia! Xixi era o mais alvoroçado; Xerez, com seu jeito de ser, não largava o bordão: garotinho! Silvio, sempre com cara de maus bofes: "Como é seu nome calouro? Souto Maior! Não! Agora você será Menor! Souto Menor! E você aí: teu nome?" E os prefixos dos calouros? O do Horta era hilariante: Jardim Pomar das hortas maravilhosas.

No Ginásio, que também se transformava no saudoso cinema, assistimos filmes sensacionais, entre eles E Deus criou a mulher com a Brigitte Bardot. O cinema também funcionava como refúgio e momento de paz para os calouros. O período de convívio com o Intensivo foi duro. Cruza remo, peitômetro, pisômetro, patinha-de-leão... Um duro aprendizado, que fez alguns de nós sair antes do tempo. Há nomes que hoje são amigos. Mas, à época, assustavam: Chicu, Rossler, Arlindo, Lassance. Os nossos verdadeiros veteranos no CN, a turma imediatamente acima, na grande maioria, eram só de amigos...

 

Toque de alvorada! Todos pulam dos seus beliches. Um corre-corre só! Frio... Uniforme de ginástica, leite gelado... Vamos para o pátio externo... Ginástica, flexão, canguru... Banho... Café da manhã... Aulas! Almoço... Sexto-tempo... Esporte à vontade! Jantar... Estudo obrigatório... Toque de silêncio...

 

Mas o impulso aventureiro e a boa índole de cada um daqueles jovens eram maiores que os trotes (que diminuíam com o passar do tempo), eram maiores que os festivais de provas, que a saudade dos pais e da namorada... E que a dura rotina, que nem parecia dura nem rotina. O que mais doía, na verdade e apesar de tudo, eram os quarenta dias longe de casa. E isto unia a Turma Cox. Já éramos uma turma, já havia uma identidade: o mesmo entusiasmo pela Marinha. E se formaram grupos: os bodes, os sulistas, os paulistas, a patota da Zona Sul, os niteroienses, os suburbanos... Era a turma com a mesma determinação de servir a pátria. Via-se isto na vibração dos embarques no Babitonga, nas disputas escolares ou nos saudosos campeonatos esportivos entre as Companhias.

 

No Segundo Ano, agora veteranos, assumimos o Gingilim... E esta revista do pato brincalhão brincou com todos, a cada licença. O redator-chefe era o Araújo, além de muita gente boa no time: José Carlos, Bauzer, Farjala, Alex... Sem falar nos colaboradores de plantão: Eligio, Benício, José Augusto, Otomo. O Gingilim número um prestou uma homenagem aos colegas que desembarcaram do Velho Barco e não se matricularam no segundo ano da turma. O Araújo escreveu: "Adeus Marinha dos meus sonhos, adeus Colégio Naval, parte de minha vida!" E predestinava: "Amigos que partiram gravem isto: o destino os levou para longe, no entanto, vocês deixaram aqui no Colégio Naval corações fraternos e amigos. A amizade será sempre o elo que nos unirá por toda a vida".

 

Fez parte, também, de nossa viagem no Velho Barco a Revolução de 1964 que víamos de longe e que nos amedrontava por falta de informações. Mas havia presos políticos no nosso bailéu. No entanto, achávamos que estávamos prontos... Éramos também Marinha! Mas, passamos ao largo...

 

E do nosso grito de guerra, alguém lembra?

 

Quiricomba, zepelim

cangerê com gingilim

areguá, guá, guá

bambuê, caxingelê

embaúba, berimbau

naval, naval, naval!

 

Um dia pegamos nosso malão embarcamos no Rio das Contas... Fomos pro Rio de Janeiro... E nunca mais voltamos. Voltamos... Mas só pra matar a saudade.

 

ESCOLA NAVAL, ILHA DE VILLEGAGNON

 

"INCORPORANDO-ME À MARINHA BRASILEIRA, PROMETO CUMPRIR RIGOROSAMENTE AS ORDENS DAS AUTORIDADES A QUE ESTIVER SUBORDINADO, RESPEITAR OS SUPERIORES HIERÁRQUICOS, TRATAR COM AFEIÇÃO OS IRMÃOS DE ARMAS E COM BONDADE OS SUBORDINADOS E DEDICAR-ME INTEIRAMENTE AO SERVIÇO DA PÁTRIA, CUJA HONRA, INTEGRIDADE E INSTITUIÇÕES DEFENDEREI COM O SACRIFÍCIO DA PRÓPRIA VIDA!"

 

Chegou a Escola Naval. Com orgulho éramos os sentinelas dos mares! Aspirantes... Não apenas isso: éramos os jovens senhores do futuro da Marinha! Mas, calouro de novo! Trote de novo, novos amigos... Mas havia o espadim para compensar tudo isso!

 

A turma iria crescer em oitenta e um novos companheiros até sair Guarda-Marinha. A Escola Naval nos brindava com uma nova forma de vida... Estávamos no Rio de Janeiro. Nossas paisagens eram cartões postais: o Pão de Açúcar, o Corcovado, a belíssima entrada da Barra, o aterro do Flamengo, o aeroporto Santos Dumont. Para a maioria significava estar bem perto da família... E ainda havia o marulhar constante do mar, quebrando nas rochas e nas muralhas de Villegagon...embalando nosso sono e nossos sonhos. O Rio estava apenas do outro lado da ponte e do canal... Havia até os safinhos que esperavam a noite chegar só pra ir cortar o cabelo em terra, atravessando a nado o canal. Haja safismo! O roncar dos motores dos aviões no aeroporto Santos Dumont nos incomodava, mas virou rotina. E inspirou Manolo, que acabou piloto...

 

Lembranças... Quantas lembranças! Adaptação, suga, hidráulica... O alojamento, o rancho, o bailéu... O cinema (e as apresentações de teatro-rebolado no cinema com vedetes da época), o planetário, a enfermaria, a lavanderia... Os berros uníssonos e selvagens que partiam das janelas gritando "Mulher!", sempre que passava algum iate ou lancha cheia de gatinhas. Tiros esparsos que nunca se sabia a origem... O soldo, golpes, licenças... Audiência, impedimento, bailéu... Jurupaca, garotas, marafas... O concorrido rancho noturno, o cerimonial da bandeira, o companheirismo...

 

E que tal relembrarmos um pouco o esporte em alguns dos nossos atletas... Asp. Acatauassú, nos 110m com barreiras com o tempo de 16,6s; o Asp. Afonso Barbosa batendo, na ocasião, dois recordes no mesmo dia: 100m e 200m rasos com os tempos respectivos de 10,7s e 22,5s; o Asp. Malgueiro, no lançamento de disco com a marca de 44,12m. E o Matinhos com a vara sempre na mão...Sem falarmos no melhor de todos e Prêmio Olímpico de 1964 no Colégio Naval: Pedreira..
A Escola era isso e muito mais... O final de cada ano, com a Escola vazia e só os bodes batalhando um avião para irem pra casa, e os dependentes porrando para não serem jubilados. O licenciamento semanal! Maravilha! Mas, o jaquetão tinha que estar impecável... Cabelo na marca... Sapato lustrando... Mas, às vezes, e apesar de tudo "O geral não estava bom". Podia melhorar! E o licenciamento ficava pra próxima licença. Coisas da caserna.

 

No Terceiro Ano, nos dividimos para somar: Armada, Fuzileiros Navais, Intendentes! E havia mesmo os que já se aventuravam nas especialidades e postos... Bruno, já era um MEC... Manolo, piloto, outros, Almirantes! O entusiasmo era contagiante!

 

As viagens de instrução... Nelas descobríamos a vida no mar e nos portos, pouco a pouco! Que beleza as baixas latitudes de Salvador, Recife... Nordeste maravilha! Em 1966, fomos a Luanda, na África! No inicio de 1968, visitaríamos os países do Prata nos valorosos CL Tamandaré, CT Paraná, CT Paraíba, CT Pernambuco e o Custódio de Melo.

 

Quem lembra do Bicho-do-Mato... E seu jeito irreverente de cartear: "Você é da equipe de futebol? Então vai, leva isso lá em cima..." As festas na Escola Naval... A regata Escola Naval: um dia inteiro de festa, que se encerrava com o baile. Aqui começou muito namoro!

 

O sete de setembro era uma prova dura de resistência: acordávamos de madrugada e desfilávamos às 10 horas da manhã... Mas vibrávamos ao passar no palanque, na Presidente Vargas. Nosso Segundo ano foi marcado pela morte do nosso amigo Ribeiro e pela Operação Quebra-Nozes (que abateu o Andersen com um autotiro no pé). Já o terceiro ano foi duro... E no final desse ano de 1967 houve a intervenção na SAPN (Sociedade Acadêmica Phoenix Naval) com a prisão temporária de alguns colegas brilhantes, inclusive com o afastamento definitivo de vários amigos e do nosso amigo e ex-chefe de classe Rogério Tadeu. O quarto ano trouxe novos oficiais para a EN, por conta do que supostamente havia de errado na SAPN. O tempo mostrou que não havia nada de errado! E chegaram os CT Carvalho, Marques da Costa, Obino... E quem não se lembra do Obino, o grande campeão de papeletas, não é Manolo!

 

E, de repente, sem saber que éramos felizes estamos no campo de esportes cantando:

 

"Adeus, minha escola querida...

Adeus vou à pátria servir...

Adeus, camaradas gentis...

Eu vou partir, eu vou partir!".

 

A emoção é grande para todos: os pais, as namoradas, as noivas, os amigos... E recebemos nossas espadas... Pronto! E partimos felizes... Mais partido ficou o nosso coração... Pois a Escola Naval agora era apenas um orgulho a mais e uma grande saudade... Estávamos quase prontos...

 

GUARDA-MARINHA,13 DE DEZEMBRO DE 1968

 

Viagem de Ouro! O Navio-Escola Custódio de Melo agora já está zarpando... Sem o Carvãozinho e sem o Vagner (mas levando os civis do Ministério da Indústria e do Comércio Ferdi e o João Augusto Souza Lima com a exposição intitulada: BRASIL: O AMANHÃ É HOJE. Os Guardas-Marinhas: novos ricos, cheios de dólares, cheios de amor pra dar... Estavam no mar...

 

O velho e audaz Navio-Escola navega, rangendo... valoroso. Enfrentaria até furacão. O velho Comandante Cézar Augusto Petra de Barros não era de muita conversa. Nós o víamos muito distante de nós... Era o moita!..

 

Ao cruzarmos o Equador pela primeira vez, não nos faltou o batismo de Netuno, como é tradição. Os golfinhos eram mais velozes... Belém, Manaus... Rumamos para a Europa, passamos pelo Canal da Mancha, atingimos o Báltico e vamos até Estocolmo. Pela manhã as estrelas não escapavam do nosso sextante... Nem ao entardecer! No regresso atravessamos o Canal de Kiel, cruzamos o Atlântico... Vamos para os Estados Unidos. O feito maior que a nossa viagem, na ocasião, e na nossa opinião, foi o primeiro pouso do Homem na Lua. Voltamos pra casa pelas Antilhas. Foram 78 dias de mar e 56 dias de porto em quatro meses e meio de viagem. Foi muito instrutiva e agradável, não há dúvida. Muitos foram os países... Mas dava uma saudade de apertar o coração na saída de cada porto. O apito do navio era cortante... Mas havia sempre um novo porto. Enfim, a volta. Quem não se lembra da romântica cena do Moacir abraçando a noiva e comentando: Já não agüentava mais... Paris é uma merda! Maravilha!

 

A NOVA VIDA

E vem a nomeação a Segundo-Cão, quero dizer Segundo-Tenente. Lá fomos nós... Quatis rabudos... Tenentes fobós rumo à nossa primeira comissão. Uma nova vida. Cada um seguiu o seu caminho: navios... quartéis... terras, ares e mares. Vieram outras comissões e outras promoções... Vieram as especialidades: Maquinistas, Aviadores, Eletrônicos, Submarinistas, Engenheiros, Armamentistas, Hidrógrafos... A Turma Cox também se destacava no meio civil... Engenheiros, Embaixadores, Estatísticos, Professores, Empresários, Bancários, Políticos, Ministros, Médicos...

 

Como Capitães-de-Corveta, um grupo de oficiais resolve criar a Associação da Turma Almirante Cox, ATACOX. E, a partir deste fato, saímos à procura dos colegas civis: aqueles que não seguiram a carreira naval ou a abandonaram depois. E nos inspiramos na profecia do pato Gingilim: "A amizade será sempre o elo que nos unirá por toda a vida". E fomos à caça dos desgarrados e desaparecidos. Sabíamos que encerráramos 1964 com 103 atacoxianos e que passaram a pertencer a ela, na Escola Naval, mais 80 companheiros. Éramos então 184!

 

A Turma Cox hoje está espalhada pelo mundo. Há colegas morando nos Estados Unidos, na Espanha, em Cingapura, na Suíça... E em vários estados brasileiros. Mensalmente, na última sexta-feira do mês, ela se reúne no Clube Naval do Rio de Janeiro para um almoço. Além disso, efetua encontros variados dos seus sócios e dos familiares. Hoje a turma esta quase toda fora da Marinha por contingências de carreira. Mas temos ferramentas modernas que nos ajudam na manutenção dessa união. Entre estas temos o nosso sítio, ainda em desenvolvimento, e a boa vontade de todos em manter acesa a chama da amizade nascida na busca do mesmo ideal: Marinha.

 

O Diretor da revista A GALERA vaticinava em 1968: "Dentro em breve, a turma só existirá em teoria: estará espalhada pela Marinha!" Na verdade, ela se espalhou pela Marinha, pelo Brasil e pelo mundo... O sonho primeiro de todos nós foi a Marinha, não há dúvida... O tempo passou... Alguns a viveram intensamente... Outros sofreram por ela... Mas, o mais importante foi vivê-la, senti-la, amá-la... e ter sido um pouco também Marinha.

 

Matéria escrita pelo Comandante Eligio Ferreira de Moura Filho por ocasião da criação do site da turma Cox.

 

 

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