Obra Literária

Amigos: Finalmente a Turma Cox se decidiu pelo seu sítio. E, como temos agora a nossa home page, aprochegue-se a nós. Esta é a sua Página Literária. Nela você viajará pela verve literária de muitos dos nossos coxianos... Conhecerá o que pensam alguns, rirá do senso de humor do José Carlos Cardoso, lerá Sepúlveda sem ser no JB, conhecerá mais o Ernane, Malgueiro, Araújo, Elígio, Otomo e outros que estarão contribuindo com está página.
Não apenas a poesia, a crônica, ou o conto habitarão esta página. Histórias pitorescas dos tempos de Angra dos Reis ou Villegagnon, de Guardas-Marinha ou da vida profissional passarão por aqui. Quem sabe de repente nos transportemos para 1963, num relato do José Augusto, no Pátio Interno. Ou, o José Carlos Cardoso nos conte uma passagem profissional do Manolo...Também podemos voltar no tempo para saber como o calouro Frazão definiu reto... Certamente estórias nunca contadas aflorarão do aluno calouro, de mescla, branco ou cheviot, com o caxangá enterrado na cabeça, com a gola fechada, ou, como mágica, esse aluno será veterano, tendo na testa o caxangá... e muitas outras estórias. Voltará aos bate-coxas do bar dos Aspirantes... Reviverá estórias das saídas de barcos à vela, regatas a remo ou vela, corridas rústicas. Aqui começamos. Nossa proposta é relembrar e informar, de modo agradável e ameno.

 

A Diretoria

" A amizade será sempre o elo que nos unirá por toda a vida "
Almte Araújo

Índice 

 

 

1-Reflexões sobre o nada

 

Quando estava cursando o antigo curso ginasial (1º grau de hoje), eu tinha um professor que não admitia, em qualquer operação de subtração ou da prova dos noves, o aluno responder 'nada' em vez de 'zero'. Por exemplo 5 menos 5 igual a nada. Ou 15 noves fora 6, 6 noves fora nada. A reação do professor era imediata: “nada não existe, meu filho, é zero! Nada é ilusão da matéria!”. Isto me ficou gravado até hoje.

Recentemente coloquei uma frase no Usina, parte de uma poesia que escrevi no início do ano, que diz: “A solidão é o nada que preenche o meu vazio”
Esse dois fatos me levaram a refletir um pouco mais sobre o nada.
Observem que na frase acima temos o nada, em conjunto com o vazio e com a solidão, como a própria negação da negação. Em verdade o nada é a negação da própria lógica. Senão vejamos.

Consideremos que esta frase seja verdadeira: Existe o nada. Podemos concluir então que nada existe. Ora, se nada existe, a sentença existe o nada é falsa. Mas nós admitimos que ela é verdadeira...

O nosso mundo material é inseparável da percepção bipolar que temos da realidade, da dicotomia dos opostos, condição essencial para a nossa existência no plano material totalmente dependente dos nossos sentidos e das limitações da nossa mente e do nosso cérebro. Realidades inseparáveis da luz e das trevas, do bem e do mal, do grande e do pequeno, do quente e do frio, etc. O nada está fora dessa nossa percepção limitada das coisas, fazendo parte do conjunto das outras coisas que não compreendemos e que, para compensar as limitações da nossa percepção racional se constituem num simbolismo criado por nós para convivermos com aquilo que não compreendemos e não conseguimos explicar.

Uma das grandes questões sem resposta e que inquieta a mente do homem em todos os tempos e em todos os lugares, é quando tentamos entender a origem de tudo e acabamos esbarrando no seu oposto, o nada. A origem do Universo talvez seja um dos mistérios que mais nos inquieta por não sabermos a resposta, apenas especulamos, imaginamos e teorizamos, recorrendo quase sempre a uma concepção essencialmente religiosa. O Mito da Criação, pelo seu próprio nome, já denota um amparo nas diversas religiões para explicar o inexplicável. Em geral, todas as culturas recorrem à concepção de uma realidade absoluta ou o Absoluto que, não só conteria como transcenderia a todos os opostos na sua relação bipolar. O elo de ligação entre o Absoluto e a nossa realidade é estabelecido nas diferentes definições dos Mitos da Criação.

De um modo geral, podemos classificar os mitos em duas grandes categorias. Uma que pressupõe apenas um momento da criação, chamado de Mitos com Criação e outra que admite que o Universo é, sempre foi e sempre será eterno, porém este universo é criado e destruído ciclicamente um número infinito de vezes, não havendo um momento único de criação do Universo. Esses mitos são denominados Mitos sem Criação. Nessas duas grandes categorias de mitos, as respostas à pergunta 'Existe um Começo?´ são duas: Sim para os mitos com criação e Não para os mitos sem criação. Cada um deles é subdividido em subcategorias. Para os mitos com criação, são concebidas três subcategorias: uma que admite a existência de um Ser Positivo, Absoluto, um Deus Criador; outra que admite a existência de um Ser Negativo ou Não-Ser, com uma criação a partir do vazio absoluto, do nada; e uma terceira que admite a existência simultânea e equilibrada de um Ser e de um Não-Ser, que conteriam todos os opostos não separados, em situação de permanente conflito entre a ordem e o caos, até o momento de sua criação. Em todos esses três mitos, está presente um momento da criação, um momento de início de contagem do tempo, a partir do zero. E antes do momento da criação, do tempo igual a zero o que existia? O nada? O que é o nada? Eis o conflito.

Os mitos sem criação admitem duas subcategorias em que não existe um momento definido para a criação do Universo, ou seja, ou o Universo sempre existiu, existe e existirá para toda a eternidade –Mito da Existência Eterna; ou o Universo é continuamente criado e destruído em um ciclo que se repete para sempre –Mito do Universo Ritmico. O que existiu antes do Universo que sempre existiu e depois do Universo que sempre existirá? Nada? Não dá para para responder. Está além dos nossos limites racionais.

Há ainda as questões do nada relacionadas com o espaço físico, sem considerações temporais. O vácuo absoluto, o Éter existe? Mas isto é a mesma história que não será contada aqui e agora, ficando para considerações posteriores.

Será que o meu professor tinha razão ao afirmar que o nada é ilusão da matéria?

 

ERNANE CALADO DE SOUZA MELO

 

2-Larga a espia de proa

ou

Brava Espia

 

Larga a espia de proa e deixa-me vagar

No canal, na corrente, ao vento ágil da aurora;

Livra-me deste cais sombrio, eu vou-me embora,

Vou buscar meu refúgio entre as ondas do mar.

 

Eu prefiro o oceano imenso, barra afora,

A um porto onde se compra o amor no lupanar;

Sinto falta do amor que não pude comprar,

Como aquele das lendas de amores de outrora.

 

Mas sei que vai chegar o amanhecer do dia

De passar num cabeço a minha brava espia

E esconder-me dos uivos tristes da procela;

 

Em que o sol vai fundir a bruma do horizonte,

E há de mostrar-me um cais alegre ao pé de um monte,

Onde eu possa viver feliz ao lado dela.

 

Sepúlveda

 

3-Viagens no Tempo – Relato da Reunião de Turma


Cheguei ao Rio na quarta-feira, dia 30, três dias antes da reunião de sábado. Aproveitei a tarde para dar um pulo até o centro da cidade, aonde aportei na estação do metrô do largo da carioca. Subindo a escada de acesso, uma luminosidade, velha conhecida, afagou minhas retinas. À medida que ia me aproximando do topo, uma sensação de familiaridade tomava conta de mim e eu viajei no tempo... Voltei a 1962, quando percorria esse mesmo ambiente, essas mesmas ruas, cruzava com o pessoal e me dirigia ao cruzamento da Ouvidor com a Gonçalves Dias. Chegando lá, procurei avidamente rever a entrada do Curso Tamandaré, preparatório para o exame para o Colégio Naval, onde a escada me levaria ao primeiro andar das salas de aula. Ledo engano. O prédio não existe mais. Hoje uma nova construção, mais moderna, tomou o seu lugar. Não importa, a vida é assim mesmo, cheia de mudanças e a gente vai vivendo momentos, convivendo, percebendo, assistindo a vida passar como expectadores privilegiados, participando de situações que logo ficam na lembrança. Criando situações nós próprios, mas tudo se esvai. A gente olha para trás e vê o que viveu... tantas lembranças... tantos momentos... tantas situações...
Mas nada se perde. Em nossas mentes convivem tanto essas lembranças do passado, como a situação presente em que vivemos e os nossos sonhos para o futuro, que nos espera, ávido de nossas ações, nossa presença, nossa convivência. Ansiando por nossas palavras, nossos atos e a realização ou a tentativa de realização dos nossos sonhos. Nossos momentos, enfim.
Rio de Janeiro, sábado, dia 03 de dezembro de 2011. Um desses momentos começou às 21 horas.
Ao longe, dava para ver a luz ambiente, que passava pelas janelas e emitia uma aura de alegria, de vibração, de felicidade...
Adentrei ao recinto, um salão de rara beleza nos meandros do primeiro Distrito Naval. Em poucos passos encontrei queridos companheiros e parei na entrada. Começava uma nova viagem no tempo. Os novos velhos momentos iam de 1963 a 68, à viagem de instrução de 69... Olhava para vocês todos e me via de cachangá, conversando, me parecia estar ora no Colégio Naval, ora na Escola. De repente me perguntavam quem era o mais baixo e as risadas de uma amizade franca lembravam a turma que fechava a formação para os desfiles.
Volta e meia companheiros voltavam para papear e eu olhava nos seus olhos, nos seus sorrisos e sentia a felicidade de cada um estampada em suas faces. A mesma que eu também estava sentindo. Felicidade essa vinda do âmago de cada um dos integrantes da Turma ali presentes e, certamente, do coração daqueles que não puderam vir, mas que vibram igualmente em uníssono.
Queridos companheiros, amigos e irmãos de Turma. Foi uma honra, uma alegria e uma Felicidade estar com vocês todos.
“Adeus minha Escola querida. Adeus vou à Pátria servir. Adeus, adeus. Adeus... eu vou partir, eu vou partir...”
Partimos todos para servir à Pátria. Cada um à sua maneira, mas todos com um grande sentimento de honra, patriotismo e seriedade.
Mas... Não foi um adeus, foi um até logo. Existem as reuniões da Turma... Existem os diretores da Atacox... Existe o Zé, o nosso aglutinador!!
Assim sendo, até logo mais, até o próximo encontro!!
Abraço do amigo, colega e companheiro de Turma,
Souto-Maior
1032 – 2027 – 1014 – 2007 – 3004 – 4005 – GM – 2º.Ten – 1º.Ten – CAEO – CT(RNR)

 

4-Marinha

 

Dos meus amores,é dos maiores!

Dos meus desejos, um prazer!

Quando estou no mar me inebrio

no sabor das suas ondas, no caturro do navio.

A sua maresia, Marinha, me extasia!

Vivo em você, mas já sinto a saudade...

Saudade do convés, do espírito de corpo...

Do Imediato durão, do Comandante na ponte,

do Quincas malandro, do marinheiro padrão...

Marinha dos meus amores...

Marinha das minhas dores...

Marinha dos meus favores...

Marinha do porto, da saudade...

Marinha dos CC32, Marinha das máquinas,

da jacuba, da farinha do foguista...

Marinha dos céus estrelados,

das noites altas, das ondas fortes...

Marinha da minha sorte!

Como foi bom encontrá-la,

como foi bom vivê-la, senti-la, amá-la...

Como foi bom ser você, Marinha!

Marinha das lágrimas de ferrugem,

Marinha dos escovéns envelhecidos...

 

 

5-Saudação ao Caçador

 

O vento parece parado,

a garça parece parada

na relatividade desse espaço-tempo nessa ave rara.

 

O piloto de caça voa

e não denuncia sua fortaleza, nem simplicidade...

Sua face é halo,

hálito de silêncio e velocidade...

Essa nave flutua,

quase levita feito peixe no aquário...

 

Fantástico, esse piloto e sua nave a todo pano,

no céu, de mar alto,

onde sua verdade destoa e se recria...

É completo e um dos poucos eleitos...

Veloz, é ímpar nesse campo, nesse tempo, nesse vento...

Seu mar é seu carrossel.

 

Fantástico!

Admiro esse piloto especial e sua cosmonave esguia

na solidão do voo sem claque...

Decola , cumpre a missão

e regressa para si mesmo.

Fantástica essa nave sem caraca na quilha,

nem amarras,

que brinca com a gravidade na rosa dos ventos...

 

Esse marinheiro é fera...

Sem frio na medula.

O seu tempo é ferrão no combate

sendo Falcão mas peixe-absoluto.

Fantástico esse caçador solitário

que vai à luta enquanto se distrai peixe-voador...

 

Seja bem-vindo ao alado palco da Macega.

Atraca a tua paisagem à deste poema...

Faz tua passagem baixa nesta arena...

Seja bem-vindo ave acre,

lança teu ferro no convés, funda teu nome

pois agora é teu tempo

e você elite, raro, caçador.

 

Eligio Moura

 

 

6-Tubarão de Metal

 

Aí está o teu tubarão de metal

esculpido na dor,

cravado no peito.

 

Este homem lapidado

no treinamento duro e frio

tem garras devastadoras.

É um monólito.

É um mito.

Pra ele o limite é o infinito

onde ecoa seu grito.

 

Aí está o teu tubarão de metal,

conquistado na raça, no risco do corte

no limite da morte.

 

Sua face aguda de aço,

no rosto ácido,

o faz íntimo da cruz.

Seu posto é invisível

e sua paciência louvável.

E ele sente Deus nas cicatrizes...

 

Forjado no sal

e no domínio do eu.

O MEC domina a dor

e acredita no corpo.

Seu golpe é silencioso

e sua sorte costurada na audácia.

O sal dos oceanos é menos acre que o MEC...

 

Aí está o teu tubarão

invadido no seu habitat

e forjado metal...

 

É esse brevê o orgulho do MEC

filtrado na saga do coliseu

no comando crawl, na falsa baiana...

Mais que isso:

ele conheceu o mato e o mar.

Ele venceu o vento e o tempo...

Ele carrega cicatrizes.

 

Aí esta o teu MEC,

de carne e osso,

Tubarão de Metal.

Orgulha-te dele...ele é especial.

 

Ele é desconhecido... e tem escamas.

É invasor...

É fera determinada.

Ele aprendeu com as ondas e a arrebentação

a cumprir sua missão.

Não se iluda se o mergulho é profundo:

ele já foi ao âmago dele mesmo

e conhece todas as derrotas...

 

Aí esta o teu MEC,

de carne e osso,

Tubarão de Metal...

Orgulha-te dele... ele é especial

 

Eligio Ferreira de Moura Filho

 

 

7-AMIGO DO MAR

 

O meu último sono anda distante,

E o mar é minha torre de marfim.

O marinheiro poeta é um gigante,

E a marinhagem nunca chega ao fim.

 

Calíope, minha doce acompanhante,

Não me deixa dormir com seu clarim,

A vida é uma alvorada alucinante,

A vida do poeta é mesmo assim.

 

Só consigo sonhar, quando desperto,

A saudade é somente minha musa,

E o estro é meu irmão, é meu amigo.

 

Portanto, a inspiração anda por perto,

A promessa do mar é tão profusa,

E é este o mar que quer ficar comigo.

 

Sepúlveda

 

8-SAUDAÇÃO DO GUERREIRO

Homenagem aos Guerreiros do Esq.HS-1

 

Salve

Alado marinheiro

Penipotente guerreiro

Filho do mar...

 

Teu voo suave

Esconde a fera de som metálico.

Fera que fere

As águas profundas

E abate

Com seu tridente mortal

O submarino errante.

 

É o teu halo guerreiro

O canto alto da asa

Esculpida no peito

Daqueles

Que são quase perfeitos...

É o teu elmo

A aura de deus

Que paira sobre ti

No céu

No mar

E em cada novo salto

Sempre.

 

Salve guerreiro

Da lua nova

Do mar alto

Do sol causticante.

A tua fibra

É a garra

Do primeiro marinheiro...

O teu braço forte:

A tua garça,

A tua raça!

 

Salve

Caçador noturno

Soturno profissional

Irmão de sangue

Dos guerreiros

Que aqui passaram,

E o lastro

Daqueles que passarão.

 

Salve marinheiro

Que voa no mar...

Aqui

É o lugar

Da conquista da tua graça.

Aqui

É o teu lugar...

Aqui

Tomas forma

Tomas força

Acalentas o teu sonho

Para um dia

Cinzelado puro guerreiro

Voar...voar

Senhor do próprio mar.

 

Apesar de árduo

É o teu rastro

Guerreiro

O caminho para os astros...

E essa trilha

Persistirá

Para todo o sempre

Mesmo quando existir apenas o olhar

E tudo já for saudade...

 

No entanto guerreiro

Através dos tempos

Pulsará teu peito

No coração

E na eterna poesia

Dos poucos eleitos...

 

Dip gang: marque dip!

 

Eligio Moura

 

9-Rumos

 

O horizonte do mar.
O encanto. A esperança.
O cais e a maré. A maresia.
O marinheiro surto
e o seu pavio curto.

O cabo. As amarras.
O comandante.
Nós e o lais de guia. A enguia.
O mar e o peixe voador.
O sal. O sol. A pesca e o pescador.

O porto. A mulher.
O beijo. O longo apito no cais.
A dor e o calefrio.
Tudo acaba quebra-mar
nos rumos do navio.

 

Eligio Moura

 

10-Porto

 

Parto na chegada
e na saída.
Na vida me reparto.

 

Eligio Moura

 

11-Marinheiro morto

 

Já tive minha sorte.
Hoje estou porto
neste surto.

 

Eligio Moura

 

 

12-Contraste

 

De um lado
aquele bloco de concreto,
compacto, arranhando o céu.
Do outro, a tapera de taipa, concreta,
amarrando o chão...
De um lado aquele terno e gravata
vestido de Homem,
do outro, aquele pé chato,roto,
parecendo Deus...

 

Eligio Moura

 

 

13-Prezado amigo

 

Como estás? Há muito tempo não nos vemos. Lembras da nossa adolescência, do colégio interno onde estudávamos? Éramos amigos inseparáveis, de confidências, de brigas um pelo outro, de aventuras e travessuras.
Eu estou bem. Vida profissional consolidada, filhos, neto, amigos, trabalho, algumas leituras. Infelizmente nem tudo são flores, como já dizíamos naquela época. Há também os infortúnios, os problemas não resolvidos, as tensões, as decepções, os que não sendo inimigos não são amigos, os indiferentes, os egoístas. O balanço final, porém está positivo.
Passei por momentos difíceis, conturbados, depressivos, solitários, como muitos passam. Lembras como conversávamos sobre vários temas, nos domingos de folga que nos dávamos, à sombra dos pés de jamelão ( nome dado aqui no Rio aos nossos 'pés de azeitona'). Já sabíamos que a solidão é um dos maiores problemas das pessoas, podendo levar à depressão. Mesmo cercado de outras pessoas, de amigos, da família, podes te sentir sozinho. Também já passaste por isto?
Estou passando por uma transformação. Sinto que algo de novo, edificante, poderá acontecer e contribuir para orientar minha evolução. Novos caminhos?
Mesmo caminho em melhores condições? Ainda não sei. Me sinto feliz. Interessante é que, como sabes, sou uma pessoa que sempre se apaixonou facilmente e a sensação que tenho é a mesma como se estivesse dominado por uma nova paixão.
Como a Natureza é pródiga em dispor para nós sentimentos tão arrebatadores, que nos fazem agir de forma diferente, ver a vida com outros olhos! Também já sabíamos que paixão não é amor, que pode não ser duradoura, mas que pode se transformar em amor, mesmo que fraternal. Como é bom se apaixonar, já dizias. Lembras?
Agora me falas sobre ti. Que caminhos percorreste? Que pedras encontraste nesses caminhos? De uma coisa estou certo: deves ter evoluído, deves ter engrandecido e contribuído para o bem da humanidade, por menor que tenha sido essa contribuição. Nem que tenha sido o assentamento de, ao menos, uma pequena pedra na construção dessa imensa catedral, da qual somos parte.

Um grande abraço. Aguardo notícias.

 

ERNANE CALADO DE SOUZA MELO

 

 

14-Malandro agulha

 

Naquela manhã,o navio hidrográfico Sirius estava iniciando mais um dia de intenso e árduo trabalho a quarenta milhas náuticas da cidade de Natal.O “killer” comandado pelo brioso Ten. Agulha decolou para um cheque de manutenção,já previsto pelo cronograma da viagem.O helicóptero tomou o rumo perpendicular ao litoral e desapareceu no horizonte, pois estava previsto seu cheque sobre terra. O safo oficial avisou ao Controlador Aéreo do navio que estava sobre terra e que iria iniciar suas manobras.
A Cidade do Sol, com seus quase 300 dias de Sol a pino ao ano, recebeu a Piaba 15 próximo ao rio Potengi... Ele realizou várias manobras junto ao solo, em terreno plano, sendo auxiliado pelo mecânico... Todas elas indicaram que tudo estava muito bem. Como havia tempo disponível e o dia era de mais um sol maravilhoso, o ultra-safo piloto resolveu dar um bordejo e inspecionar a praia... Apenas verificar se tudo estava OK!Um alvoroço lá embaixo de muitos adeusinhos chamou a atenção dele. Manobrando imediatamente fez uma passagem baixa; numa segunda pousou próximo a um grupo de belas garotas que estavam sendo sendo fotografa das... Uma das faixas conduzidas dizia: ”Salve Luciana, Miss Cidade do Sol”. Claro que o mecânico, devidamente brifado, logo desceu da aeronave e trouxe a miss para um incrível vôo com o bonitão alado.E Agulha decolou... A aeronave estava um aço e o dia ótimo para voar! Um belo sobrevôo: nas praias,no Forte dos Reis Magos,no rio Potengi,na cidade... E no regresso, após o pouso, a bela miss fez questão que o gentil astronauta, naquele macacão verde todo embolachado, descesse e tirasse fotos...Mais fotos: no helicóptero, no meio das garotas... uma farra. Mas o tempo estava acabando... E como a Cinderela, Mano sumiu, dando antes um razante para retribuir o carinho e os telefones...
Controle Sirius, aqui Piaba 15 para o regresso. Missão cumprida, na marca!
O navio manobrou para receber a aeronave. O pouso foi perfeito... O Comandante Tella, sisudo e que nunca gostou de pilotos, a quem chamava de motorista, observou o pouso.Chamou o piloto e lhe perguntou:
__Tudo bem com a viatura?Daqui a três dias estaremos em terra, mas até lá teremos muito trabalho.
O Ten. Agulha pediu licença para se retirar, não sem antes dar uma espetada pelo “viatura”:
__Vou pegar meu rancho “reforçado”,Comte! Com licença! Naquela época, a Base Aeronaval liberava uma verba especial para melhorar o rancho das equipes aero-embarcadas. O objetivo era mantê-las a salvo de indigestos repastos como ensopado de língua, rabada e outros.Tudo pela Segurança de Vôo.
E chegou a sexta-feira para um merecido repouso de três dias!Isso após trinta e poucos dias sem porto!A turma subia pelas paredes!O belo e imponente NHi Sirius atracou.Veio a licença! O Comandante no meio da tarde resolveu dar um giro pela cidade...Esticar as pernas,ver as novidades,jantar em terra.No centro olhava as vitrines descontraidamente. Mas um fato, aparentemente sem importância, chamou sua atenção numa loja fotográfica: foi um pôster em tamanho família com a linda Miss Natal. Ela, sorridente, expondo seu corpo maravilhoso, estava abraçada a alguém de macacão verde, capacete na mão... O Comandante estático, olhava extático sem acreditar no que via. Espumava! E como pano de fundo para a foto nada menos que a belíssima praia e... o Mar 15!
O Comandante Tella bufando, alucinado, regressou na hora pra bordo.Mas já era tarde... Agulha, malandro, já se mandara pra terra fazia tempo!E desfrutou do bom e do melhor... E a sua noite foi longa, larga e farta!
Mas, da parada do outro dia, não escapou... Foi devidamente trolhado.

 

ELIGIO FERREIRA DE MOURA FILHO

 

 

 

15-Criação

 

No jogo da palavra
Jogo na lavra
Que a pena aposta.
Faço da busca
Ao poema o tema da minha paz
E busco na semi-luz
Desse labirinto
Aquilo que sinto.

Nessa criação cristalina
A pena se esmera,
Nervosa, no rastro da inspiração.
As vezes, pára e espera.
Às vezes, se queda
Na beleza do verso forte
Ou segue conivente
Aquele caminho...

Procuro a palavra certa,
A melhor rima,
Colho o verso grave,
Desprezo o cascalho
Experimento a melodia.

E, de palavra em palavra,
Nessa agonia,
Surge o verso;

E, pouco a pouco,
Das contrações ritmadas
Revela-se no verso
O sopro da poesia.

 

ELIGIO FERREIRA DE MOURA FILHO

 

 

 

16-Dor Metafísica
(soneto)


Dor, súplica do espírito candente,

Dor que nos queima a carne na raiz,

Dor que não tem sintoma consistente,

Dor que conhece a causa, mas não diz.

 

Dilema entre o feliz e o infeliz,

Desafio normal de toda a gente

Que vê na dor do mundo a mão motriz

Que nos há de dar vida eternamente.

 

Ainda que eu me esconda na virtude,

Mas sinta um cheiro forte do pecado

Que me acompanha desde a juventude.

 

Eu já clamei aos céus; não fui ouvido.

Eu já pedi perdão; me foi negado.

E nem sei mais se estou arrependido.

 

Antonio Sepulveda

Salvador, 17 de setembro de 1997

 

ANTÔNIO CÉSAR MARTINS SEPÚLVEDA

 

 

 

17-Dilema

 

Como eu te amei! Que santa idolatria!

Como era grande o amor que eu te votava!

Se mais do que eu te amei, eu não te amava,

É que amar ‘inda mais, eu não podia...

 

E esse amor que aumentava, dia a dia,

Queimando no meu peito, sufocava...

Tentei, mas não encontrei uma palavra,

Capaz de traduzir o que eu sentia.

 

Contento-me co’a dor, paixão secreta,

Minha única e límpida verdade

De um amor que é tão puro e tão pungente.

 

Eis o grande dilema do poeta:

Saber que o amor transcende à eternidade

E não poder viver eternamente.

 

ANTÔNIO CÉSAR MARTINS SEPÚLVEDA

 

 

18-Colégio Naval I

 

Nas águas cálidas, o Sol a boreste,

Da enseada Batista das Neves

Sopra um forte vento sudoeste

Como sempre, pois nunca soprava leve...

 

Meu barco singra, velas enfunadas,

Bombordo adernado. Que saudade:

Meu velho barco de tantas paradas,

Colégio Naval minha mocidade...

 

O mar te banha, as montanhas te contêm...

Teus jardins, tuas salas, pátios, portões...

Que saudade: és meu berço também!

 

As lembranças trazem as emoções:

sexto tempo, trote, namoradas, meu bem...

Ele prossegue formando novas gerações...

 

 

19-ColégioNaval II

 

Um dia a ti cheguei jovem, feliz, prazenteiro.

Que visão! A tua alma e teu corpo inteiro

engastado nas montanhas! Que verdura!

Meu velho, meu barco, minha ventura...

 

Naveguei contigo dois longos anos,

moldando a minha alma à tua...

E fomos inflando as velas, honrando tradições

num timonear seguro, seguro, de campeões!

 

Patescarias, audiências do Comca,

Serviços extraordinários, bailéu,

licença especial, o garbo, a pompa...

 

Recebidos o afeto, o preparo essencial,

partimos, saudosos, de vento em popa!

O rumo? Villegagnon: nosso ideal!

 

20-Villegagnon

 

O mar plúmbeo lambia todo dia

as rochas do meu destino.

Todo dia vivia os seus matizes

querendo descobrir os seus segredos

e saber dos meus caminhos.

 

Às vezes, calmo, não me exigia...

Noutras selvagem,

golpeava as pedras de Villegagnon...

O seu ar seduzia...

Cheiro de maré, maresia...

O ferir das pedras

fortalecia suas ondas, me dava forma,

me dava força...

Enquanto seu marulhar acalentava meu sono

e meus sonhos...

 

Um dia o trabalho terminou.

Aquele mar didático, soturno, anônimo,

dinâmico me tornou.

Lançou-me n'água,

já cinzelado e esculpido em rocha dura.

E flutuei, senhor do próprio mar.

E marinheiro, naveguei...

 

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

21-O primeiro embarque

 

Feliz e orgulhoso de corpo inteiro

cheguei jovem a ti barco primeiro...

Na bela farda branca, impecável,

subi a bordo num dia memorável.

 

Silhueta cinza, os companheiros,

o tijupá, portaló, timoneiro...

Chegando feliz, vivendo emoções.

No convés as primeiras tradições...

 

Na continência, o cumprimento!

O orgulho de estar em um navio,

vaso de guerra com o seu armamento.

 

A ti cheguei feliz e jovial:

num aceno à bandeira nacional

começava minha carreira naval.

 

 

22-Meu velho Pará

 

A saudade hoje é grande. Onde será

que estás, ó meu barco, velho Pará?

A tua alma inda vive forte na minha

e saudosa, vibrando, lembrando a Marinha.

 

Nas noites escuras, lúgubres, do tombadilho,

eu via no horizonte distante um brilho:

era uma estrela guia e ela muito dizia.

Meu navio navegava, no caturro seguia...

 

Nas suas malaguetas, um timoneiro!

Fortes ondas batiam varrendo o convés...

E eles seguiam: o marujo e o barco altaneiro.

 

Onde estás, amigo meu, Velho Guerreiro?

Quero saber de ti, amigo, companheiro!

Meu pranto é de ferrugem, barco primeiro...

 

 

23-Alma marinheira 

 

Este mar que encanta minha alma imperfeita

desde a tenra mocidade no caminho que trilho

preenche-me inda hoje o espírito, o peito,

Gloriosa marinha que me fez teu filho.

 

O mar que hoje me encanta o espírito, já feito,

vibrou desde cedo nas salas -sem empecilho-

do Velho Barco onde nasceu a chama, o respeito

por ti marinha que me forjou com brilho.

 

No convés, lais de guia, calafate... Aprendi

a arte marinheira; no sextante, a navegar...

E parti para o além-mar, onde melhor vivi.

 

Nos mares navegando fostes meu lar!

AH! Marinha, contigo muito aprendi;

Mas uma saudade ficou: foi do meu mar...

 

 

24-Ato falho


Muito além das estrelas
e muito aquém de mim
habita todo o universo.

Todos os mistérios
estão contidos nesse espaço,
um pseudo vazio
que Deus criou
sem dar satisfação a ninguém...

 

Eligio Moura

 

25-QUE DEUS ABENÇOE A FAMÍLIA COXIANA

 

Conhecemos-nos ainda adolescentes,

Com muitos ideais e sonhos por realizar.

Jovens, de procedências diversas,

Compartilhávamos a vocação para o mar.

Nossa cinquentenária e exemplar amizade,

Desde cedo começamos a cultivar

Numa intensa e saudável convivência

Angra, em Villegagnon e no Colégio Militar.

Felizmente, os que seguiram outros caminhos

Ao nosso círculo optaram por voltar,

Porque deixaram marcas e lembranças,

Que nossos corações jamais poderiam olvidar.

No seio de nossa querida Família Coxiana,

Desfrutemos desse privilégio singular

De, pelo simples prazer de estarmos juntos,

Mais um ano de amizade celebrar.

 

Paulo Afonso

 

27-CARO AMIGO LAPA

 

Tanto no Colégio como na Escola Naval, Cel­so Guimarães Lapa desfrutava da amizade e ad­miração de todos. Suas atitudes, seu carisma, a firmeza de caráter e a forma obstinada e dura como perseguia seus objetivos faziam dele uma pessoa querida na Turma Cox, valendo-lhe, mesmo, um carinhoso apelido: “Lapará” (uma associação de “Lapa” e “carcará” - pássaro do sertão nordesti­no, de características marcantes, que ganhou notoriedade na canção de Maria Bethânia).

Na Escola Naval, em época dos grandes “festivais” de provas, era sempre lembrado por todos como “aquele que não arvorava1 nun­ca”. Por essa razão, era comum, naquelas noi­tes de véspera de provas, o silêncio profundo ser cortado abruptamente pela voz tonitruante de quem encerrava os seus estudos, “berran­do” à janela do camarote: “Arvora Lapará!” - o “grito de guerra” de quem sucumbia ao cansa­ço, se sentia já preparado para a prova ou, sim­plesmente, provocava o amigo.

Mesmo convivendo, nos últimos quatro anos, com a doença que o vitimou, jamais es­moreceu. Até o final lutou como um bravo, cer­cado pelos cuidados da esposa amada e pelo carinho dos filhos, netos, noras e genro.

“Não arvora não, Lapará!”, espere, somen­te um pouco mais, pela “grande reunião da Turma”.

 

JOSÉ CARLOS CARDOSO
Vice-Almirante

28-Poemas roubados

 

Ao meu pai

Eu sei que te roubei alguns poemas 
Para enfeitar com eles minha vida.
Cobicei-lhes a essência dos fonemas
E a harmonia dos versos tão garrida,

Com teus versos eu levo de vencida
As dúvidas cruéis e os meus dilemas,
Com teus versos amanso as investidas
E amordaço o grasnar das seriemas...

Tu nunca sentes falta da poesia,
Quando teu filho dela se apropria,
Porque és meu pai, mas somos como irmãos...

E ao te roubar poemas em criança,
Com eles eu cresci e com a esperança 
De trazê-los de volta às tuas mãos...

Grapevine, Texas, 31 de janeiro de 2018.

 

Sepúlveda

29-MEMÓRIAS DE UMA NOITE DE CHUVA

 

I

No fim de uma noite,

De chuva de açoite,

De ti me acerquei...

Num bar de calçada,

Estavas molhada,

Mas eu te enxuguei.

Tomamos uns tragos,

Trocamos afagos,

Disseste: "Não sei..."

 

II

Na vil madrugada,

De chuva e enxurrada,

Eu não te menti...

Matamos a fome,

Disseste teu nome,

Mas eu me esqueci...

Eu lembro, com gosto,

Teus olhos, teu rosto,

Eu lembro de ti...

 

III

Passamos a noite,

De chuva de açoite,

Trocando impressões...

Falamos de amores,

Dos sonhos, das dores,

Das desilusões...

Falamos da vida,

Da noite perdida

Em mil turbilhões...

 

IV

Tentei, num ensejo,

Roubar-te um só beijo,

E tu não deixaste...

De novo, insisti,

De novo, pedi,

De novo negaste...

De novo tentei,

Pedi, implorei,

Então, me beijaste...

 

V

Eu quis que me amasses,

Que a mim te entregasses

Sem pejo ou razão...

Pediste-me calma,

Disseste que a alma

Não tem coração...

Embora hesitasses,

No fundo, aceitasses,

Disseste que não...

 

VI

A carne em demência,

Pedi: "Por clemência,

Somente uma vez!?"

E, se tu gostasses,

Quem sabe?... Deixasses

Mais duas ou três...

A chuva caía,

Teu corpo gemia.

Disseste: "Talvez..."

 

VII

Em dado momento

De arrebatamento,

Prostrado, implorei:

"Não sentes, no fundo,

Um desejo profundo?"

Eu te perguntei.

E à minha agonia,

Em tua atonia,

Disseste: "Não sei..."

 

VIII

Falei de ternuras,

Prazeres, loucuras,

Na noite sem fim...

A noite passava

E a chama queimava,

Em ti quanto em mim...

A mim abraçada,

Beijando e beijada,

Me deste o teu "sim"...

 

IX

Enfim, nos amamos,

Mil gozos gozamos,

De novo, eu nasci.

Manhã... Despedidas,

Promessas sentidas...

Não maIs eu te vi...

Gravei, por inteiro,

Teu corpo, teu cheiro,

Que tanto eu senti...

X

Eis tudo, em resumo:

Eu não me acostumo

Que o amor tenha fim...

Sou "doido varrido",

Tu tens um marido,

A vida é assim...

Só peço que agora

Me dês uma hora

Por dia pra mim...

 

XI

Eu sei que sentidos

Foram os gemidos

De gozo e prazer...

É pura maldade

Negar a saudade

Que tu deves ter...

Assim, cada noite,

De chuva de açoite,

Tu deves sofrer...

 

XII

No bar da calçada,

Luar ou enxurrada,

Espero por ti...

Mil luas brilharam,

Mil chuvas secaram,

Mas não te esqueci...

Eu sigo esperando

E me perguntando:

"Por que te perdi?"

 

Rio, 24 de outubro de 1968.

Sepúlveda

30-Marinheiro eu sou

 

Marinheiro eu sou, hoje, amanhã, qualquer dia.

O oceano está tão longe; mesmo assim meus pés

Parecem caminhar ao longo de um convés

Que caturra na mente e cheira à maresia.

 

Singrei os sete mares, vi dor e alegria,

Caturrei sobre as ondas e venci o revés

Da força da corrente, os ventos e as marés,

Com arte e com engenho de marinharia.

 

Fui Nelson, fui Colombo e também Odisseu,

De joelhos rezei nas oliveiras do horto,

Chorei diante do túmulo de Galileu.
 

Sim, o mar me embalou numa linda canção

E me deu uma mulher amante em cada porto,

Mas apenas um grande amor no coração.

 

Antonio Sepulveda

Grapevine, Texas, 16 de setembro de 2018.

Sepúlveda

31-Homem ao Mar

 
Fecharam-se as portas e janelas não foram abertas.
A esperança da lei escorreu à força pelo ralo e calamos;
Mudo, esperava que o vento rondasse e ninguém mudou...
A decolagem insana se deu; surdo aos apelos o acidente se fez...

E o Guerreiro 14, coruja do ar, se fez ao mar: acidente anunciado...
A noite sem lua, nua; as estrelas se escondendo atrás dos guerreiros.
Com o horizonte submerso, junto comigo, indignado, o 12
preparou-se para o salvamento complicado...

E era urgente evitar a boca famígera de Netuno
já que havia a tragédia numa comédia
do ’Manda quem pode, obedece quem tem juízo...’
E coragem tivesse, ou não, era hora-tardia- de gritar: Não, à tirania!

O não ecoou levando dois guerreiros com Netuno e a ferida.
E dois salvos, alvos da competência do 12. Missão dolorida!

 

Eligio

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

QUERIDOS AMIGOS,

É COM IMENSA SATISFAÇÃO QUE DIVULGAMOS TEXTO ENVIADO PELO NOSSO MASSAYOSHI, QUE, EM 1985, VIVENCIOU UMA EXPERIÊNCIA INUSITADA, QUE ENCHE DE ORGULHO TODOS OS COXIANOS.

BRAVO ZULU, MASSAYOSHI!!!

 

32-JATOBÁ

 

A propósito deste vídeo que foi encaminhado pelo WhatsApp da Atacox, em que é relatado o incêndio do navio tanque "JATOBÁ" no porto de Recife em 1985 e a homenagem prestada ao Prático Nelcy que retirou o navio da área interna do porto, tendo em vista que havia o risco de o incêndio se propagar além do navio e atingir o parque de tancagem. Segundo notícias, o governador do Estado chegou a transferir a sede do governo, então situado em bairro próximo à área portuária.

Assim como o NT "JATOBÁ" faz parte da História da cidade do Recife e da Praticagem de Pernambuco, por esse acontecimento, posso afirmar que a MB e a Turma COX, também, fazem parte do Livro Histórico do NT "JATOBÁ". 

O Salvamar NE foi acionado para prestar SOS  ao navio sinistrado e designou a CV "FORTE DE COIMBRA" para atender aquela emergência. A Corveta era, então, comandada por este componente da Turma COX. Não só por isso, mas porque toda a operação realizada pelo navio de salvamento foi envolvida por circunstâncias especiais e anômalas. Para explicar melhor será necessário recordar os detalhes que a memória ainda guarda, por ter sido muito marcante para o Comandante do navio. Peço licença para relatar reminiscências, para melhor entendimento.

Tudo começou no almoço do dia das mães, domingo no Clube dos Oficiais - COBANA - dia seguinte ao sinistro. Ao ser perguntado pelo Comte do DN se o navio estava PRONTO para atender ao pedido de SOS, respondi que não, mas estava APTO A. O porque da resposta estava na situação operativa do navio. O Comte havia assumido o Comando com o navio no dique, etapa final de seu período de reparos (PNR) e havia feito uma única saída para experiência de máquinas. Não era, portanto, o "Navio de Serviço" que, na ocasião, apresentava uma restrição de máquinas. Com todas as restrições logísticas, a ordem para "suspender", suspendeu, também, o almoço para os oficiais do navio, pois havia decidido fazê-lo antes de anoitecer - compreensível pelo inusitado, ainda não havia passado pelas etapas exigidas para considerar o navio PRONTO operativamente - por exemplo, não conhecia, como devia, o timoneiro de DEM. A tarefa era "prestar socorro" a um navio tanque (GLP) incendiado que foi retirado do porto, era "toda" a informação que se tinha.

A primeira faina foi retirar o Jatobá dos arrecifes na Praia do Janga (entre Recife e Olinda) - em área não hidrografada - profundidade menor que 10 metros. Após rebocá-lo de volta a Recife foi fundeado no lameirão existente externamente ao quebra mar do porto.

O navio recebeu, então, a ordem para rebocá-lo para o Rio de Janeiro, após a definição do Armador quanto às questões referentes a seguros e outras mais. Era necessário, portanto, completar o abastecimento do navio, inclusive da tripulação, mandou-se equipes a Natal para buscar roupas, uniformes, pertences pessoais, pois a comissão havia sido alongada e, como dito no início, o navio não estava de serviço, havia saído numa emergência para atender ao pedido de SOS.

Para o reboque, que havíamos estimado em 10 dias, foi decidido que seria feito sem alguém a bordo do rebocado - contrariando recomendação da doutrina de reboque - em face do estado que se encontrava o navio com o interior da superestrutura totalmente incendiado.

Essa decisão levou a outra que foi preparar um dispositivo alternativo de reboque - com cabresteiras - montado de modo que fosse possível ser "caçado" sem a necessidade de ter alguém a bordo do rebocado. Felizmente não foi necessário usá-lo.

Toda a comissão durou mais de 1 mês e, no regresso a Natal foram, então, programadas as inspeções pós PNR, exigidas para a aprovação da condição operativa do navio.

 

Salve ATACOX !!!

 

Massay

33- O RELÓGIO DE OURO

 

(Primeiro lugar no Concurso de contos do Colégio Naval-1964)

 

Conto extraordinário

 

Espreguiço-me. Apalpo a barriga e noto que ela cresceu...”Acabarei por tornar-me um velho balofo”.

Minha vida é entediada. Vida feita, nada tenho que fazer além de pagar impostos. Não tenho amigos; parentes, não conheço nenhum, frequento apenas uma pequena sociedade, mas não me agrada. Tomo o jornal, bocejo, e folheio desinteressadamente. Crimes, desajustes políticos... o mundo não me interessa. O mundo é cheio de agitações tolas. Objetos perdidos ...é boa...Quem há de devolver um objeto achado? Não existe gente tão honesta. Um pensamento maluco vem-me à cabeça: anunciar por perdido um objeto que não perdi. Isso há de divertir-me por uns dias, penso. Apanho o telefone ligo para a redação. Descrevo um relógio fantástico. Inteiramente folheado a ouro, mostrador em números romanos e gravados em prata, dois pequenos diamantes incrustados nos aros e na pulseira gravado meu nome.

Dois dias depois.

O telefone toca. Surpreso por vê-lo tocar, atendo. É da redação. Notificam-me ter em poder o relógio e pedem-me para ir busca-lo. Sem perda de tempo, dirijo-me à garagem e apanho o carro. Não sei o que pensar. Estariam brincando comigo?

_O senhor teve sorte, aqui está o seu relógio.

Engasgam-me as palavras. Era exatamente o relógio que eu descrevera.

_Quem foi o cavalheiro que o achou?

_Era uma mulher, apenas entregou e foi-se.

Murmuro umas palavras de agradecimento e saio para respirar.

Sento pesadamente no divã. Retiro o relógio do bolso e o examino. Maior surpresa o relógio vai lentamente perdendo o brilho e verifico ser apenas um desgaste onde supunha ver diamantes. Um velho relógio sem valor algum. Vejo a pulseira e onde gravado meu nome, leio outro nome. Um nome com mesmo sobrenome que o meu. Corro a examinar os papéis de família e descubro. Era o nome de meu bisavô.

 

Tikara Otomo

 

34- Oração do Mergulhador de Combate

 

Permita, meu Deus,

Que nesta noite não haja lua

Mas sim tormenta, caos e trevas

Que a chuva e o mar

nos tomem em seus braços e nos protejam.

 

Permita, meu Deus,

Que o medo me torne forte

E corrompa os fracos

Pois seu sangue logo será derramado.

 

Permita, meu Deus,

Que todos aqueles

Que um dia ousaram forjar

Os tubarões de metal no peito

Perpetuem a honra e a lealdade

Daqueles que são quase perfeitos

E dos que um dia virão a ser.

 

Permita, meu Deus,

Que sempre retorne a minha pátria

Com a vitória em meus braços

Pois se um dia ela precisar

A qualquer hora e em qualquer lugar

A morte surgirá das profundezas do mar

Na forma de um Mergulhador de Combate!

 

(Autoria CC Eligio Guimarães de Moura)

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

35- Também Sei Voar

 

Preparei a inspeção pré-voo com o carinho
e o cuidado daqueles que amam a vida.
O instrutor chegou tranquilo, a caminho
das minhas verdades de voo, por mim já conhecidas.

O check-list de cabine foi cobrado e pago
com a certeza das respostas e procedimentos
daqueles que sabem e podem nestes momentos.
_Torre Macega, aqui uno zero! Pronto pra decolar!

Minha garça sai do chão; aos céus se alça!
A minha alma vibrava feliz, também no ar.
Fiz curva para bombordo... Na proa o ponto Alfa.
Macega na fonia, começava a falar:

_ok! Liberado o quadrado cinco: tome o rumo Norte...
Suba para mil  pés. O coração batia forte!
Primeira emergência: perda de motor.
Tranquilo, me observava o instrutor.

Feito o acobage! Descida suave...e 
com o pouso seguro. O instrutor quer mais! 
São novas emergências, são novas decolagens.
E, por fim, satisfeito: a prova de competência!

O voo solitário chegara para mim.
O instrutor desceu e gritou :¬__Vá, voe!
E, de repente, me senti só naquele Sol,
naquele céu que me esperava azul...

Preparei o meu solo. E, naquele momento,
quase todo o passado repassou-me:
desde a minha seleção até a visão
do que seria para mim, em verdade, uma aviação.

Uma nova dimensão aparece-me:
a da simplicidade, da emoção, do prazer.
Voar... Voar sozinho pela primeira vez.
A rotação subiu: cem! Como deve ser.

Pronto! Direita livre, instrumentos normais!
Pronto para voar! Decolo. Estou solo...
Já na primeira curva, sinto o embalo do sonho...
Sinto o embalo da asa no peito...

E, orgulhoso, me sinto quase perfeito.
Lá no chão, o instrutor sinalizava aos gritos:
_Muito bem! Prossiga! Mais um circuito!
Frio, emocionado, decolei, subi, voo reto...

Nas marcas os instrumentos; as vibrações normais;
as luzes esperadas. O sonho assim se fez!
No pouso vejo uma coruja decolar,
e não sinto mais inveja: eu também sei voar!

Aquele solo, prêmio do grande ideal,
acalentado desde a tenra mocidade
-sonho naquela época, hoje realidade-
me fez um piloto na carreira naval...

No pouso final, altivo e envaidecido,
com o peito enfunado aos ventos da aviação naval,
solto um grito de orgulho, por fazer
o que é reservado aos pássaros: também sei voar!

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

36- Patíbulo

 

Relíquia venerada, o homem do sudário

pagou a conta dos nossos pecados,

com o maior e mais denso recado

de que o amor deve ser cultivado.

 

Este homem foi flagelado, morto crucificado!

Seu corpo foi envolvido nesse lençol de linho,

que em 2000 anos ainda está conservado,

apesar das agruras que viveu pelos caminhos...

 

No lençol está impressa a sua imagem rasa;

um negativo fotográfico, em terceira dimensão,

produzido por radiação, segundo estudos da NASA.

 

O mistério é inquietante: se o lençol é falso, diria,

o artista é genial; se verdadeiro, divino é o amor

de quem ali foi registrada tanta agonia e essa dor...

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

37- Bailado Cósmico

 

Naquela tarde a luz já diminuía...
As estrelas começavam a aparecer.
Nossa estrela, pouco a pouco, sumia
tão bela, naquele entardecer...
Assim, quase não havendo mais dia,
começava o bailado sideral, para nós,
habitantes do hemisfério austral...
Brilhando, na noite clara, no céu alto,
saltitantes, elas apareciam...
Pouco a pouco, uma a uma:
primeiro Antares, a gigante;
depois Aldebaran, em Taurus;
agora Capella — tão bela!
Mais outras... E outras...
Numa suave melodia...
No bailado cadenciado da Natureza!
Agora Canopus acende-se;
Sirius, lá longe, incendeia-se...
Lá longe outras estrelas se via:
Vega, Rigel, Castor, Pollux,
em cadeia suavemente explodiam...
Estrelas jovens, irrequietas...
De intenso brilho.

Tão novas no firmamento.
Tão vermelhas!
Outras, azuis, engastadas no pálio aberto,
já decrépitas, por certo,
Mas belas e paradoxalmente "novas"...
E no suave halo galáctico,
das suas constelações milenares,
milhões de estrelas se agitam
em suas reações termonucleares,
sensacionais, espetaculares...
São estrelas lindas, coloridas...
Estrelas vermelhas, laranjas...
Estrelas amarelas, brancas, azuis...
Estrelas gigantes, estrelas anãs...
Estrelas reais, descomunais...
Estrelas longínquas, tão distantes.
Tão distantes, a anos-luz...
Estrelas misteriosas, vaporosas,
vaporosas, soltas no céu...
Com elas todo o universo
se movimenta em festa:
os planetas errantes
em suas luzes difusas, constantes;
os cometas, também os planetóides...
Até os meteoritos e os asteróides!

Todos, todos, irmanados nas leis universais,
nas equações de Kepler, de Einstein e outros mais..
Vão e vêm, num silencioso ritmo.
Ritmo matemático, físico...
Seguem seus caminhos. Viajam com a luz!
Dóceis, tão dóceis, tão dóceis...
Obedientes às forças cósmicas,
eles se atraem e se repelem.
Sem cessar, harmonicamente...
E nós, seres finitos,
meros viajantes do espaço na Terra
(espectadores do infinito)
assistimos, deslumbrados, a esse movimento...
A esse bailado cósmico aparente,
tão lindo, tão lindo do firmamento!

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

38- Criação 

 

No jogo da palavra
Jogo na lavra
que a pena aposta.
Faço da busca ao poema
o tema da minha paz
e busco na semi-luz desse labirinto
aquilo que sinto.

Nesta criação cristalina
a pena se esmera, nervosa,
no rastro da inspiração.
Ás vezes, pára e espera.
Ás vezes, se queda
na beleza do verso forte
ou segue conivente
aquele caminho...

Procuro a palavra certa,
a melhor rima,
colho o verso grave,
desprezo o cascalho,
experimento a melodia.

E, de palavra em palavra,
nessa agonia, surge o verso.
E, pouco a pouco,
das contrações ritmadas
revela-se no verso
o sopro da poesia.

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

39- O Piloto e o Aviãozinho

 

Estava um tanto apressado: o avião ia decolar
e eu estava atrasado.
No corre-corre da pressa
não dei muita atenção ao que pedia meu filho
com um papelzinho na mão:
-Papai, me faz um avião!
-Agora não! Não tenho tempo.
Foi minha resposta, no ato.
-Papai, dobra o papel que o resto eu faço...
insistiu na sua inocência,
sem atinar para a importância da pressa
nem para sua impertinência.
-Agora não! Falei uma vez mais.
Mas, logo percebi o que realmente eu fiz;
vi aquela criança, meu filho,
afastar-se, infeliz, para o seu mundo.
Parei tudo... O abracei e fiz o aviãozinho.
O meu prêmio veio na hora
no seu sorriso de satisfação
e na sua exclamação:-Papai, ele voa!

Na pista, no beijo de despedida,
abracei forte meu filho,
que abraçava seu novo brinquedinho...
-Papai, leva ele pra você! Pra você não me esquecer!
Com o sorriso mais belo
que os seus quatro anos podiam oferecer,
recebi o que me foi ofertado com o maior dos carinhos
para jamais esquecê-lo.

Com um nó na garganta,
na comunicação sem palavras,
deixei as lágrimas correrem...

Foi o maior dos presentes
que jamais recebi, foi o mais belo dos atos
de amor que vivi.

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

40- Voar

 

Voar...voar //Eligio Moura //Prosa poética

 

Decolar... voar...voar... muito e mais...
Os pássaros fazem isso a toda hora.
Para eles são tarefas naturais.
Mas voar é muito mais que isso: embora
não pareça, os pássaros sabem como voar:
não voam na chuva,
pousam e decolam contra o vento...

Alguns homens também voam...
Voam alto...voam acima dos montes,
das nuvens, desafiando os ventos,
o tempo, ou voam baixo sobre o mar
de noite, de dia, vivendo momentos
sofisticados que somente a quem voa
é permitido desfrutar...
 
Voar... Voar alto sabendo que o voo encerra
segredos e habilidades que nos levam para o alto e além...
ou voar como as corujas...à noite nas suas caçadas
noturnas.... Como Deus lhes ensinou...

A gaivota voa alto e faz certeiros ataques
na sua árdua pescaria marítima...
O beija-flor, que é mais que poesia, paira no ar
tão belo recolhendo o néctar que há nas flores...

O homem também voa...E sabe porque voa....
Mas, mesmo assim, ele sempre se emociona
com as verdades do voo...
Como pode um avião voar,
sendo ele mais pesado que o ar?
não deixa de ser fantástico, eu sei...
Voar é uma curiosa verdade
que sempre deixa a gente impressionado
com tanta beleza
nesse desafio da gravidade...

Pois bem, pássaro que também sou,
decolo sempre muito orgulhoso;
pois aprendi o que somente aos pássaros
Deus ensinou...

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

41- Sexo da Mulher

É um jardim de flores e odores o sexo da mulher...
É um templo que deve ser contemplado com amor.
Mais que isso:
é uma catedral cujos sinos dobram
e, muito além desse altar, espera pela caminhada
do sumo-sacerdote que um dia chegará ao sancta sanctorum...


Ajoelha-te, ante este porta, e reza
a oração dos apaixonados.
Implora, toca suavemente a melodia da tua devoção
e as portas serão abertas, as comportas liberadas...


É um jardim de amores o sexo da mulher...
Escondido, protegido, se guarda desarmado
esperando o cavalheiro que no seu cavalo
alado perfaça aquele caminho de contemplação,
amor e dor
na sua multiplicação.


O sexo da mulher é um lugar secreto
portal de amor,
portal de espera,
Portal de entrada,
Portal de saída,
portentoso labirinto de prazer
que encerra e transita
milagres de vidas e sonhos...


O sexo da mulher se realiza na semeadura...
Por tal é fantástico o seu esplendor
na ânsia do encontro que torna forte
sua aparente fragilidade.


O sexo da mulher se realiza na semeadura
do seu sumo-sacerdote...

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

42- Bom voo, companheiro!

 

(Homenagem dos aviadores navais ao VA Lamego,

em SPA,RJ,05/05/1987).

 

Há mais de 40 anos

fizeram-se os sonhos...

Vieram as emoções do mar,

do sentir a natureza...

Vieram as asas, os galões,

as tantas e inesquecíveis comissões

fruto do amor, do puro amor à arma.

 

E as estrelas... brilharam!

 

Há mais de 40 anos

o Sol nasceu no peito alado

do filho ousado...

E vieram as renúncias do dia-a-dia

pelo amor às travessias,

pelo sabor de estar aos ventos

naquelas máquinas que o completavam...

 

O tempo passou

e pouco a pouco chegaram as cãs

e com elas aumentaram as afinidades

e o amor pelo seu chão...

Foram dias gloriosos, salutares dias,

de desafios e provações

que a capacidade, a lealdade, a firmeza

transformaram em realizações....

 

O tempo passou...

O Sol já se põe como é natural.

O corneteiro, impassível, solene

em sentido, em continência,

faz o toque choroso, bonito

em reverencia ao astro que se põe...

 

A bandeira arria!

O ocaso é de festa, no entanto,

O ocaso é de festa: pelo dever cumprido!

Saudoso, inda toca o corneteiro!!

Bom voo! Bom voo, companheiro!

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

43- Soneto I  Eis o Colégio Naval

 

Cento e três jovens cheios de esperança, 
Vindo até de terras distantes, corações a vibrar, 
À Central do Brasil, com vigor e confiança, 
Chegaram à Marinha, prontos para o mar.
Familiares e amores, com orgulho estampado, 
Despedidas no trem, que partia ao destino, 
Em Mangaratiba, onde o sonho era revelado, 
A jornada começava, num traçado divino.
Rio das Contas, primeiro navio ao nosso porto, 
A vista era bela, cenário a encantar, 
O Colégio Naval, destino sem retorno.
Entre amendoeiras e um verde a brilhar, 
Era um novo mundo, austero e sincero, 
Onde entre o sonho e o dever reinava o mar

 

 

 

Eligio Moura

 

 

Ouça o áudio na voz do Eligio

44- Soneto II Nossos veteranos

 

Descemos do Aviso, formados com rigor, 
Rumo ao pátio, ao encontro dos veteranos, 
Caxangás inclinados, um ar de valor, 
nos olhos brilho de Paz dos destinos humanos.
Que maravilha o Colégio e seus filhos! 
"Alunos do Segundo" pronto a guiar, 
Com gentileza firme, em toneladas e toneladas, 
Nos moldavam, nos moldavam para o mar.
Um curso intensivo e um treino severo, 
Para a honra e o orgulho de fazer parte, 
Enquanto os veteranos, sérios, austeros.
No sonho sem alarde, o velho Colégio, 
Início da jornada, leal e sincera, 
A Marinha era futuro, um sonho egrégio.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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45- Soneto III-A nossa vida

 

No pátio interno, ecoam as vozes firmes, 
“Sentido! Cobrir!” O riso é reprimido, 
“Paga dez!” a ordem, e o aluno se redime, 
Começa a disciplina, o rigor reforçado.
Aprendemos comandos, postura e dureza, 
Formamos fileiras no Ginásio à espera, 
das Boas-vindas e no corte de cabelos sem leveza, 
Grumbach perdeu os longos, máquina severa.
Uniformes surgem, o Jaquetão imponente, 
Azul-marinho e dourado a brilhar, 
Símbolo de honra, figura reluzente.
Os veteranos, em vozes a vociferar, 
O bordão, o “garotinho”, entre risos e prova, 
Cada apelido, a história que se renova.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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46- Soneto IV Outras passagens

 

O Ginásio, refúgio e o cinema em paz. 
E Deus Criou a Mulher, encanto à tela, 
Brigitte Bardot, a beleza que nos traz 
um breve refresco nas fainas tão singelas
Conviver com o Intensivo era desafio... 
Entre “Cruza remo” e “patinha-de-leão,” 
a dor e o aprendizado, rigor e brio, 
que moldaram em nós a alma e a vocação.
Veteranos duros, sem nomes, que assustavam, 
mas que a amizade no tempo tornaria, 
pilares de um ciclo que todos selavam.
Veteranos próximos, laços que uniam... 
E o CN era um lar, moldado em aço, 
um sonho, hoje saudade, nosso maior abraço.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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47- Soneto V: Alvorada e União

 

Ao toque da alvorada, um pulo ligeiro, 
do beliche ao uniforme, no frio do dia...
No Campo de Esporte, rigor verdadeiro, 
flexões e cangurus, rotina e energia.
Café apressado, aulas, sexto-tempo enfim; 
entre esporte e jantar, a maré em calmaria 
e Estudo Obrigatório até o toque ao fim... 
E o toque do silêncio recolhia a turma inteirinha.
Os trotes aos poucos se tornam mais leves... 
Entre provas, saudades e sonhos de casa, 
a união vence o tempo, o desafio aquece.
E a Turma Cox, no mesmo fervor, se abraça, 
servindo à pátria, vibrando em alegria, 
desde o Babitonga e a disputa a cada dia.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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48- Soneto VI: O Legado do Gingilim

 

Agora, a nova estação: veteranos!, 
O Gingilim ressoa em riso e memória... 
Araújo com amigos mantém a missão:
cada linha um tributo, traços de história.
Aqueles que partiram são nome e lembrança; 
no Velho Barco, deixaram vida e chão, 
em corações fraternos vivem a esperança, 
de amizade eterna, destino e união.
"Levem consigo o que o Colégio ensinou, 
amigos e sonhos, marinha ideal," 
e na partida, o elo sempre ficou.
Por mais que o destino se mostre fatal, 
a cada maré, em porto sempre igual, 
a amizade nos une, vínculo leal.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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49- Soneto VII: Juramento da Escola Naval

 

Prometo à Pátria, com fervor e destemor, 
cumprir cada ordem, com lealdade e respeito, 
honrar o comando, o mar e seu valor, 
com fé em minha farda, minh’ alma e peito.
Aspirantes da Marinha, jovens senhores, 
unidos ao sonho, guardiões do nosso mar, 
somos guerreiros, forjados em labores, 
na Ilha de Villegagnon, nosso também lar.
O espadim nos consola, símbolo e meta, 
trote e amizade em união crescente, 
na Escola Naval, que nos forja atleta.
E assim, seguimos firmes e crentes, 
jurando vida ao mar, honra sem igual...
Guardaremos do Brasil o eterno ideal.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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50- Soneto VIII: Nos Cartões Postais do Rio

 

O Rio de Janeiro à nossa frente, que valor! 
Pão de Açúcar, Corcovado, entrada da Barra, 
Enquanto o marulho acalenta o sono renovador, 
as rochas de Villegagnon esculpiam nossas amarras.
O nosso mundo parece só... Há o canal a nos separar. 
Os safinhos e ousados ao cair da noite, 
alteravam sua rotina para o cabelo aparar... 
Enquanto os sonhos crescem sob céus de açoite.
E o roncar dos aviões se torna canção, 
Ecoando no peito de Manolo, o piloto, 
Enquanto aspiramos ao mar, nossa paixão.
Na Ilha sagrada, onde o orgulho é devoto, 
Somos cadetes, marujos em formação, 
Guarda-Marinha, nossa meta, nosso chão.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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51- Soneto IX: Lembranças da Escola Naval

 

Lembranças... Tantas, vivas a reviver: 
adaptação, suga, alojamento, o rigor, 
rancho noturno, cinema a entreter, 
Cada instante marcado com fervor.
Berros da janela, gritos de “Mulher!” 
Quando iates passam no horizonte, 
o soldo, licença, o que quiser: 
o rancho, amizade, nossa ponte...
Vedetes no palco, tiros ao acaso, 
planetário e cerimônia da bandeira, 
companheiros, unidos no mesmo caso...
Jurupaca e sorrisos, as namoradas, 
os bailes e o bailéu, histórias mil 
na Escola Naval. Sonho: O Brasil!

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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52- Soneto X: Glória e Esforço nos Campos

 

No esporte: discos, suor e paixão... 
Acatauassú, nas barreiras: veloz! 
Afonso Barbosa: dois feitos, emoção, 
com tempos acelerados, ecoando a voz;
Malgueiro, no disco, lançando o sonho;
Matinhos e a vara, sua marca fiel; 
e Pedreira, orgulho e nosso testemunho, 
brilhou como astro, de porte leal.
A cada final de ano, escola vazia...
Os bodes loucos para irem pra casa... 
O jaquetão impecável, em prontidão sadia...
Mas no geral, todos na espera e na saudade, 
com o cabelo à marca, sapato a brilhar:
Sonham com o lar, com a alma a vibrar.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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53- Soneto XI: Os sonhos  e anos de glória

 

No terceiro ano, em nova direção: 
Armada, Fuzileiros e Intendentes, 
Caminhos de bravura e decisão, 
com sonhos guiando nossos passos valentes.
Bruno, já era mergulhador de fibra e fé; 
Manolo, no céu, já era piloto de avião...
Outros eram almirantes, já em sua maré.
Todos em rumo de uma alta missão.
Nas viagens, mar e portos a explorar: 
Salvador, Recife, Nordeste amado;
lembro de 1966: Luanda ao luar.
E nas festas da Escola, encanto amado... 
Regatas e bailes, romance a brotar...
A amizade eterna, sempre a reinar.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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54- Soneto XII: O Sete de Setembro e os Tempos duros

 

Sete de setembro, madrugada fria, 
Marchávamos firmes, vibrando a cada passo, 
na avenida Presidente Vargas em harmonia...
Desfile imponente, um eterno laço.
Lembranças de Ribeiro em despedida...
E a “Quebra-Nozes”, provação feroz... 
Terceiro ano duro, a dor sentida, 
de amigos que seguiram sem nossa voz.
Na SAPN, a chama interrompida, 
com prisões de colegas tão atuantes...
Mas o tempo provou a justiça devida.
Chegaram oficiais nos dias inconstantes, 
procuraram e não encontraram os chifres,  
mas fizeram Manolo rei da papeleta triunfante.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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55- Soneto XIII: Adeus, Escola Querida

 

No campo de esportes, a canção ecoa, 
"Adeus, minha escola...", um coro a partir, 
pais, namoradas, a emoção ressoa... 
Com espadas em mãos, prontos pra seguir.
Adeus à rotina com o peito aberto, 
onde cada amigo é irmão e irmão fiel...
E partimos juntos, para novas descobertas...
A Saudade em nossa alma era o nosso papel.
A Escola Naval, orgulho de outrora... 
Estaremos sempre nela, até o fim, 
Embora tenhamos partido, ela nos ancora.
Pois, fomos lapidados, todos assim... 
Na reserva, ao mar, a jornada recorda:
Fomos leais à Marinha, um amor sem fim!

 

 

 

Eligio Moura

 

 

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56- Soneto 1: Sete de Setembro, Rito de Coragem

 

Sete de setembro, alvorada austera, 
Levantamos cedo, passos marcados, 
A resistência em marcha, primavera, 
Na Presidente Vargas, olhos focados.
Desfile em cadência, suor e orgulho, 
Brilho no olhar e firmeza na voz, 
A pátria aguardava o valor do entulho 
De jovens que amavam, juntos e a sós.
Lembranças de Ribeiro, amigo ausente, 
Nosso segundo ano marcado assim, 
E a "Quebra-Nozes", o instante ardente,
Quando o Andersen caiu ao fim, 
Um autotiro num instante urgente, 
Guardando histórias que vivem em mim.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

 

57- Soneto 2: Anos de Luta e Despedidas

 

Terceiro ano, o peso da mão severa, 
SAPN, memórias feridas, 
Prenderam amigos, dor que impera, 
Afastando sorrisos, travas nas vidas.
Nosso chefe de turma, Rogério Tadeu, 
Seguiu seu caminho, solicitado, ausente, 
O tempo cruel, mas o amor venceu, 
E seguimos unidos, sempre à frente.
No quarto ano, os oficiais chegaram, 
CT Carvalho, Marques, Obino também, 
E, ao lado de Manolo, triunfaram,
Campeão de papeletas, sem além, 
Era tempo de força, firme enfrentaram, 
E a farda exaltava o futuro que vem.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

 

58- Soneto 3: A Canção do Adeus

 

Nos campos de esporte, ecoava o canto, 
"Adeus, minha escola querida...", então, 
Era o tempo de sonhos, um doce encanto, 
Que selava no peito a forte união.
Adeus à escola, à rotina, aos irmãos, 
Às noites varadas, ao estudo feroz, 
Partíamos juntos, espadas nas mãos, 
Cada um com lembranças e voz firme.
Pais e namoradas, em prantos e fé, 
Nos olharam a partir, já prontos ao mar, 
Com fardas no peito e o sonho de pé.
A emoção era clara, um doce par, 
E seguimos ao longo, até quem nos quer, 
Com saudade a cada porto a abraçar.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

 

59- Soneto 4: O Orgulho da Escola Naval

 

Sem saber que a vida ali era feliz, 
Partimos com peito partido ao meio, 
Pois a Escola Naval, mestra e aprendiz, 
Foi lar e forjou nosso firme esteio.
Honra e saudade nos marcam pra sempre, 
A cada jornada o orgulho renasce, 
Era apenas o início, seguimos em frente, 
Com história que o tempo jamais desfaz.
A pátria era agora o farol que brilha, 
Nos guiando ao futuro, firmes, em paz, 
Cada um honrando a antiga trilha.
Fardados, partimos, onde o mar se faz, 
Mas sempre, na lembrança, em doce ilha, 
A Escola Naval será eterna e audaz.

 

 

 

Eligio Moura

 

 

 

60- Poema À Turma Cox / Eligio Moura

 

No amor à Marinha e no calor da camaradagem,
em laços fortes, a amizade forjou.
A Turma Cox na Marinha brilhou,
deixando seu quinhão e sua imagem.
Em cada posto, o braço e a coragem,
em navios, voos, missões terrestres,
Na vida militar ou civil
seu tempo honrou...
Na ativa e após, o laço perdurou,
eterno elo de paz e leal linhagem.
Desde os idos de sessenta e três, fiéis,
no mar, no céu, nas águas a imergir,
a trabalhar, a Marinha nos fez irmãos leais.
Hoje, unidos, em amizade e brasões,
mantemos viva a luz que nos faz sorrir,
e a saudade que aquece os corações.

 

 

Eligio Moura

 

 

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